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Septuaginta, Vulgata, Torá, Tanakh, Talmude e outros: Os Antigos Escritos Bíblicos


Quando estudamos a história da teologia ou até mesmo nos aprofundamos no estudo dos livros da Bíblia dificilmente evitaremos termos como Torá e Septuaginta que apesar de bastante conhecidos, nem sempre os cristãos os entendem e são essenciais caso queiramos compreender por completo o significado original dos textos que lemos em nossas traduções.

Por isso, explicarei brevemente o que significa cada um deles e alguns outros que são mais esquecidos, mas antes preciso conceituar três coisas importantes:

Antigo Testamento - Os primeiros 39 livros da Bíblia, também chamados de Bíblia Hebraica
Novo Testamento - Os 27 últimos livros da Bíblia, começando com os evangelhos.
Bíblia - Conjunto de textos sagrados para os cristãos composta por 66 livros (Bíblia protestante).

Tendo isso claro, podemos iniciar:

Torá

Vindo do hebraico תּוֹרָה ("tōrāh" para os sefarditas), significa "instrução" e é o conjunto que nós cristãos conhecemos como Pentateuco, ou seja, os 5 primeiros livros que compõe o Antigo Testamento. Costuma ser chamada simplesmente como "Lei", com L maiúscula, e foi entregue a Moisés no Monte Sinai e registrada posteriormente por escribas judeus, terminando de ser composta em torno do século VI (500 a.C).

Constitui a base do judaísmo e num sentido mais amplo pode incluir todo o Antigo Testamento para os judeus.


Fonte:
https://pt.chabad.org/library/article_cdo/aid/3329097/jewish/O-Que-Tor.htm
https://blog.sefer.com.br/o-que-e-tora/

Tanakh

Acrônimo que une a Torah (Lei), Nevi'im (Profetas) e Ketuvim (Escritos), compondo a Bíblia Hebraica chamada de Antigo ou Velho Testamento para nós cristãos. Existem controvérsias quanto ao período de sua escrita mas temos certeza que começou a ser composta antes do século X a.C, provavelmente em 1200, e terminou de ser escrita anos depois do retorno do exílio em 538 a.C, com alguns estudiosos mais críticos alegando ter sido finalizada no ano 147.

É formada pelos livros:

Torá Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio
Nevi'im Josué, Juízes, Samuel e Reis (Profetas Antigos), Isaías, Jeremias, Ezequiel (Profetas Póstumos Maiores) e os Doze (Profetas Póstumos Menores), divididos em nossa versão como Oséias, Joel, Amós, Obadias, Jonas Miquéias, Naum, Habacuque, Sofonias, Ageu, Zacarias e Malaquias.
Ketuvim Salmos, Provérbios e Jó (Poéticos), Cantares, Rute, Lamentações, Eclesiastes e Ester (Os Cinco Rolos) e os livros de Daniel, Esdras e Neemias (um livro só) e Crônicas.

Ao todo temos 24 livros, a divisão tradicional da Bíblia Hebraica e apesar de alguns Pais da Igreja dividem-na de forma diferente o conteúdo é o mesmo. O Antigo Testamento católico possui a adição dos chamados deuterocanônicos (Eclesiástico, Sabedoria, I e II Macabeus, Judite, Tobias e Baruque), escritos entre 300 a.C-70 d.C, no período intertestamentário (entre os dois testamentos). Esses livros não constam nos textos hebraicos e sua composição foi reafirmada no Concílio de Jâmnia realizado pelos fariseus entre o final do século I e início do século II

Fonte:
https://www.bbc.co.uk/religion/religions/christianity/texts/bible.shtml
https://www.livescience.com/8008-bible-possibly-written-centuries-earlier-text-suggests.html
https://torah.org/learning/basics-primer-torah-bible/
https://www.britannica.com/topic/Tanakh
LIVINGSTONE, E. A. The Concise Oxford Dictionary of the Christian Church. 3ª ed.
OUP Oxford, 2013.

Talmude

Segundo a tradição judaica, Deus entregou a Moisés a instrução escrita, já esclarecida nos dois tópicos anteriores, e a instrução falada, chamada de Torá Oral e primeiramente transmitida a Josué. A partir de então ela teria sido passada pelas autoridades judaicas século após século até que após a destruição do Segundo Templo no ano 70. d.C e a consequente Diáspora do povo judeu os mestres e escribas, conhecidos como Tanaítas, registraram esse conhecimento e tornaram-no essencial ao judaísmo rabínico.

No século II foi composta a Mishná, a primeira parte da tradição que possui instruções éticas e costumes judaicos necessários para a religião sucessora do farisaísmo da época de Jesus Cristo. Os textos foram estudados pelos sábios judeus durante os anos 200-500 d.C, denominados Amonaítas, compondo comentários que foram chamados Guemará. O conjunto de ambos, Mishná e Guemará, é o que hoje conhecemos como Talmude.

Fonte:
https://sefer.com.br/o-que-e-o-talmud/4/
https://www.britannica.com/topic/Talmud#ref=ref24372

Manuscritos do Mar Morto 

Escavações entre os anos 1951 e 1956 no sítio arqueológico de Qumram, na Cisjordânia, levaram a uma série de descobertas relevantes para a antiga história do povo judeu e resultaram nos mais antigos manuscritos da Bíblia Hebraica que temos atualmente. Tais textos foram encontrados inicialmente por beduínos em uma série de vasos e potes nas cavernas do assentamento e são datas entre os séculos 3-1 a.C, provavelmente copiados pelos judeus essênios que viviam nos desertos da região, teoria proposta por Roland de Vaux e Józef Tadeusz Milik.

A maior parte dos escritos continha textos do atual Antigo Testamento como porções de Jó, Ezequiel, e Jeremias porém Gênesis, Deuteronômio, Isaías e os Salmos estão mais vastamente escritos, coincidentemente os mesmos livros mais citados no Novo Testamento. Isso levou alguns estudiosos a pensarem que os primeiros cristãos teriam os escrito porém essa suposição foi abandonada futuramente.

Eles revolucionaram a pesquisa textual do Antigo Testamento visto que os mais antigos até então eram o Códice de Aleppo (c.920 d.C) e o de Leningrado (c.1008). Ainda assim sua importância é não apenas religiosa como histórica pois possui antigos registros do Segundo Templo que auxiliaram os historiadores a compreenderem melhor esse importante período na sociedade judaica.

Juntamente com eles foram descobertos um pátio e um aqueduto restantes do período I do assentamento, entre 150-130 a.C, moedas de bronze datadas dos últimos anos antes de Cristo, entre 9 a.C-1 d.C no chamado período II e um cemitério dos mortos nas invasões romanos do ano 68 d.C.

Fonte:
WISE, Michael. The Dead Sea Scrolls Part 1: Archaeology and Biblical Manuscripts. Biblical Archaeologist, p.140-154, set.1986.
de Vaux, Roland, Archaeology and the Dead Sea Scrolls (Schweich Lectures of the British Academy, 1959). Oxford: Oxford University Press, 1973.
Milik, Józef Tadeusz, Ten Years of Discovery in the Wilderness of Judea, London: SCM, 1959.

Textos Massoréticos

Os Textos Massoréticos (נוסח המסורה) são um conjunto de manuscritos hebraicos datados dos séculos VII e X d.C copiados por escribas judeus conhecidos como masoretas para preservar os textos sagrados em suas formas originais. São baseados em textos copiados pelos hebreus desde a época do Segundo Templo (520 a.C-70 d.C) e possuem a estrutura consonantal estabelecida desde o ano 100, adotada por todas as comunidades judias.

Tornaram-se importantes por estabelecerem as bases ortográficas e textuais das Bíblias Hebraicas até hoje, sendo utilizados também na composição de novas versões da Bíblia Cristã como a Nova Versão Internacional, composta entre 1991-2000. São autoridade quando se trata de fidelidade aos manuscritos veterotestamentários e juntamente com a Septuaginta compõe o principal fundamento para o estudo dos textos sagrados judeus.

Fonte:
DE FARIA FRANCISCO, Edson. Texto Massorético. São Bernardo do Campo, 2008.

Septuaginta (LXX)

Principal tradução grega da Bíblia Hebraica, composta em algum período entre os séculos III e I a.C, possui a tradicional de ser escrita por 72 rabinos, 6 de cada uma das 12 tribos e que a completaram em 72 dias. Apesar desse mito ser hoje desconsiderado, foi importante para reforçar o caráter divino da tradução usada pelos judeus helenísticos e que deu a origem as versões eslava, armênia e copta do Antigo Testamento, usada amplamente pelos judeus alexandrinos num período de divisão interna.

Foi muito influente para o cristianismo primitivo, sendo usada pelo próprio Jesus e os Apóstolos, citada mais do que a própria Biblia Hebraica ao longo do Novo Testamento. Os livros que a compõe, contudo, não são os mesmos do Tanakh, possuindo os deuterocanônicos, que compõe a Bíblia católica romana e também III e IV Macabeus e III Esdras (chamada de I Esdras no original), Oração de Manassés entre outros textos não adotados pelos ocidentais e chamados de apócrifos, compondo apenas o cânone da Ortodoxia Oriental, ainda que não uniformemente.

Fonte:
http://www.bible-researcher.com/nicole.html
https://www.britannica.com/topic/Septuagint
Santos, P. P. A. dos. (2008). A Septuaginta (LXX): a Torá na diáspora judaico-­helenista. Arquivo Maaravi: Revista Digital De Estudos Judaicos Da UFMG, 2(2), 80-93.
https://doi.org/10.17851/1982-3053.2.2.80-93

Vulgata

É a tradução latina dos textos bíblicos com base no grego, hebraico e aramaico escrita por Jerônimo (347-420 d.C), finalizada no ano de 405 e revisada continuamente depois disso. Foi a primeira das traduções a buscar no original hebraico e não usar como base a Septuaginta, até então a mais popular. Tornou-se a tradução bíblica mais influente do cristianismo por mais de um milênio e foi a versão oficial da Igreja Católica Apostólica Romana no Concílio de Trento (1545-1563), reforçando a importância dos deuterocanônicos após a negação dos protestantes em considerá-los como equivalente aos outros livros originais e consequentemente não pertencentes as Escrituras. Perdeu seu posto apenas em 1979, quando a Igreja passou a estender suas missas e textos ao vernáculo popular, a língua do povo.

Relevante até os dias de hoje, foi o primeiro livro impresso, conhecido como Bíblia de Gutenberg e foi de enorme peso para a formação da língua inglesa até que outra versão viesse e se tornasse a oficial.


Fonte:
https://overviewbible.com/vulgate/
https://www.compellingtruth.org/Latin-Vulgate.html

King James Version

No período das mudanças religiosas dos séculos XVI e XVII, a ascensão da rainha Elizabeth I (1558-1603) promoveu um retorno da Igreja Anglicana ao protestantismo calvinista, num período próximo da redescoberta dos texto bíblicos originais e de constantes tentativas de trazê-los a língua comum como a Bíblia de Tyndale em 1526.

Os bispo anglicanos, porém, não aprovavam seu uso por divergir da versão utilizada por eles e possivelmente desafiar a autoridade eclesiástica. Buscando conciliar a forte hierarquia anglicana e os dissidentes puritanos o rei James I (1603-1625) promoveu uma nova tradução da Bíblia contando com os esforços dos principais acadêmicos da época, resultando numa tradução batizada com o seu nome e tornando-se fundamental para o nascimento do inglês moderno, sendo também um dos livros mais vendidos de todo o mundo.

Fonte:
https://time.com/4821911/king-james-bible-history

Conclusão

Todos eles são essenciais para compreendermos a história do judaísmo e do cristianismo e ainda que sejam confuso em alguns momentos, são um conhecimento valoroso para os amantes de estudos dos textos originais. Pretendo escrever postagens separadas sobre alguns dos que aqui foram citados mas isso fica para o futuro, por enquanto minha prioridade será esclarecer com mais detalhes os deuterocanônicos e a diferença entre as bíblias protestante, católica e ortodoxa.

Graça e paz a todos vocês,

Luigi Bonvenuto

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