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A História dos Huguenotes: Perseguição e Guerras Religiosas (Parte 1)

Ao decidir um nome para usar em meu site e em meu canal, queria um que representasse a minha fé e meus ideais e que não fosse igual aos que já existem. Quando percebi que os huguenotes têm muitas semelhanças com minha teologia e não eram muito conhecidos, escolhi imediatamente o nome "O Huguenote" como uma homenagem e uma identidade que decidi assumir, por mais que minha denominação seja presbiteriana.
 
Não poderia faltar a explicação de quem eles eram e de sua história e é isto que pretendo realizar nessas duas publicações: contar de forma geral a história dos huguenotes que me inspiraram a tratar do assunto que mais amo, teologia.

Mudanças na Europa

Ao estudar a história, percebemos que nenhuma ideia ou movimento surge de repente, há sempre um antecessor que o inspira ou provoca o seu surgimento. No caso dos huguenotes, sua história remonta desde os séculos XII e XIII quando dois movimentos entraram em evidência na França, os valdenses e os cátaros, também chamados albigenses. Junto com outros movimentos contestantes da Europa Medieval, são considerados proto-protestantes, ou seja, antecessores distantes da Reforma por se oporem a Igreja Católica, ainda que o segundo se aproxime mais do gnosticismo (para saber mais, veja essa publicação)

Apesar das diferenças doutrinárias, ambos surgiram na França, um em Lião e outro centrado em Albi e sofreram intensa perseguição da Igreja Católica a partir da Inquisição ou da Cruzada Albigense (1209-1229). Marcaram um espírito oposicionista contra a Igreja que permaneceu no país por séculos, mesmo depois do Reino da França se tornar uma das maiores nações católicas do continente.

Entre os séculos XV e XVI, o humanismo floresceu nos estados da Península Itálica e se espalhou por diversos países, marcando o retorno as origens artísticas, arquitetônicas, literárias e filosóficas da Antiguidade que diminuíram a supremacia da Igreja, dominadora do conhecimento durante o período medieval e centrando os estudos em Deus e na sua vontade entre os homens. Tal conjunto de pensamento foi denominado teocentrismo. 
 
O humanismo era um movimento filosófico que envolvia uma mistura de pensamentos e ligava-se as Escrituras e a civilização greco-romana, promovendo um conceito mais moderno de dignidade humana e tornando a humanidade a figura central dos estudos e da produção artística. Por esse motivo, o movimento geral foi chamado antropocentrismo (ánthrōpos, homem, kéntron, centro). O impacto religioso vem a partir do humanismo cristão que desenvolve uma consciência mais individualista e menos dependente da Igreja para exercer a fé, o que ocasiona a Reforma Protestante efetivada por Lutero após 1517, ainda que tenha rompido oficialmente apenas em 1521 ao ser excomungado e promovido um dos acontecimentos mais importantes da história moderna.

Acredito que a maioria conheça a história, mas não custa nada repetir. Após concluir que a justificação somente pela fé era o caminho mais bíblico, Lutero desenvolve suas ideias e encontra na venda das indulgências, o comércio de perdão aos penitentes que contribuíssem com a Basílica de São Pedro, a grande brecha para promover uma reforma no sistema religioso do catolicismo romano. No dia de 31 de Outubro, um dia antes do Dia de Todos os Santos, o monge agostiniano prega suas 95 teses opondo-se a tamanho crime que desmerecia a remissão de pecados oferecida pelo próprio Cristo e acaba por estremecer a estrutura da Igreja, tendo suas contestações divulgadas por toda a Europa.

No decurso de muito pouco tempo (não mais de alguns meses), o seu nome e a missão de que se sente incumbido vão ser conhecidos de uma opinião pública que se mostra cada vez mais galvanizada pelos acontecimentos que se vão sucedendo em catadupa. O detonador: a questão das indulgências. (ALMEIDA, 2008, p.10-11) 

O perfil huguenote 

Vários seguidores surgem pelo continente, alguns adotando o luteranismo e outros usando de sua audácia para efetivar o sentimento de revolta, porém com uma teologia diferenciada. 
Os huguenotes estão entre esses últimos que apesar de já guardarem um sentimento de oposição desde a época dos valdenses e das várias seitas contra a Igreja, encontraram no protestantismo do século 16 a doutrina ideal para se separarem da igreja romanista. 

Adotaram a doutrina calvinista, fundamentada pelo francês João Calvino (1509-1564) e outros teólogos como Guilherme Farel (1489-1565), Ulrico Zuinglio (1484-1531) e Teodore Beza (1519-1605), sediada principalmente em Genebra, na Confederação Helvética (antiga Suíça), e contando com adeptos nos Países Baixos, Inglaterra, Escócia, Hungria e na França, esta última pelos próprios huguenotes. A figura de Calvino foi essencialmente importante para o movimento, vindo a fundamentar a teologia exposta nas confissões de fé dos protestantes franceses.
 
Lefèvere d’Étaples (1455-1536), pouco lembrado, foi essencial na história do calvinismo, traduzindo o Novo Testamento para o francês e pregando a justificação somente anos antes de Lutero, em 1512. Foi graças a seu pioneirismo que Calvino, primo de seu aprendiz Pierre Robert Olivétan, acessou ao Evangelho na própria língua e se converteu ao protestantismo em torno de 1530, indo para Genebra em 1536, onde iniciou o ministério que se tornaria base para a teologia reformada em toda a Europa.

Em 1546, fundaram a primeira comunidade huguenote no país, aos moldes da comunidade protestante fundada em Estrasburgo por Martin Bucer e Calvino em 1538. Espalharam-se muito rapidamente, especialmente no sudoeste da França na província de Gasconha e na comuna de La Rochelle, a qual se tornaria um refúgio aos protestantes durante as guerras que viriam. No primeiro sínodo, organizado em 1559, quinze igrejas foram representadas. Dois anos depois, duas mil igrejas enviaram representantes ao sínodo de 1561, tolerados temporariamente por Francisco I graças aos apelos da humanista Marguerite d’Angoulême, sua irmã.
 
Seus membros eram primariamente artesãos alfabetizados, comerciantes e nobres opositores do absolutismo defendido pelas casas católicas, contando com membros das casas de Navarra, Condé e Valois, a última sendo mais dividida. Diferente do protestantismo alemão, onde os escritos de Lutero e seus companheiros foram traduzidos e distribuídos para o povo majoritário, na França o perfil era composto da classe média para a alta, especialmente pelo seu intelectualismo, e mesmo que tenha atingido camponeses do oeste e sudeste, a maioria do povo comum permaneceu católico.
 
Como o movimento arrebatou não só calvinistas opostos a religião romana, uma classificação interna foi dada pelos estudiosos. Estes foram denominados "huguenotes de religião", enquanto os nobres menores que apoiaram os protestante por não condizer com o absolutismo francês, tidos como inimigos políticos e ameaças ao governo, foram chamados de "huguenotes de Estado", por vezes discutindo entre si devido a suas diferentes prioridades.

O nome huguenote tem uma origem controversa mas acredita-se que venha do alemão Eidgenosz que significa “confederado”, sendo aplicado aos franceses calvinistas por desejarem um governo semelhante a Confederação Suíça. Existe também a teoria de que viria de Hugo Capeto, rei francês do século X que supostamente vagava nas ruas a noite, parecido com os huguenotes que se reuniam apenas a noite para fugir da intolerância religiosa. Não há um consenso quanto a isso, mas sabemos que tal nome era adotado no passado para caracterizar pejorativamente os adeptos franceses que preferiam se denominar "reformées" (reformados).

O início do ódio

Queima de reformadores em Meaux. A Popular History of France by M. Guizot (Dana Estes and Charles E. Lauriat, c. 1885), Séc. XIX.


Os protestantes eram odiados pelos franceses desde anos atrás, ocorrendo a primeira manifestação de ódio em 1523 quando Jean Vallière foi queimado em praça pública em Paris, antes mesmo da comunidade huguenote se organizar, devido a sua adesão aos ensinamentos de Lutero. Isso motivou muitos a compactuar com a causa dos reformados e contestar o autoritarismo e intolerância da Igreja Católica, formando uma minoria considerável no país ao longo dos anos e chegando a compor cerca de 10% da população, pouco mais de 2 milhões de pessoas. 
 
No início, ainda havia proteção por parte de humanistas quanto ao protestantismo, porém seu crescimento assustador na França e em todo o continente levou os católicos a responderem com forte repressão contra eles, especialmente após o Concílio de Trento, organizado entre 1546 e 1563, o qual oficializou a posição da Igreja perante a Reforma e iniciou o movimento da Contrarreforma ou Reforma Católica. Várias doutrinas contestadas pelos protestantes foram reafirmadas, como a transubstanciação e a veracidade dos apócrifos, e esforços foram realizados para manter o domínio católico no continente europeu, contando com a Ordem de Jesus, chamados jesuítas, fundada em 1540, ou de governantes e famílias católicas que reconquistaram territórios a mão de ferro, como a Casa de Habsburgo.
 
No Reino da França, governado pela casa de Valois, a situação não foi muito diferente. Apesar do rei Francisco I (1494-1547) ter sido inicialmente tolerante devido ao seu contato com humanistas pacíficos e pelo fato de oficiais militares e importantes nobres serem calvinistas, a pressão da Casa de Guise e do corpo eclesiástico sobre ele e seus sucessores levaram a coroa a intensificar a discriminação contra os huguenotes, contando com massivo apoio popular. O rei francês era denominado "O Maior Rei Cristão" e cria-se que ao assumir, tomava para si a responsabilidade de proteger a fé cristã por todo o seu governo. A própria existência do protestantismo como religião cristã oposta ao catolicismo era considerada uma ameaça ao reino francês, guiado pelo princípio "Uma fé, uma lei, um rei". (SHEPARDSON, 2007)

Como diz Emerson Giumbelli:
A unidade religiosa, sob uma única confissão, surge como desejável e mesmo como ideal no momento em que a consolidação de um poder central depende da quebra das pequenas e múltiplas lealdades que sustentavam a sociedade medieval; a "religião" reconfigurando-se como fator de uma nova coesão social (GIUMBELLI, 2001).
Mais manifestações de revolta vieram quando Jean de Caturce foi queimado em fogo lento em Toulouse no ano de 1532 (BAIRD, 1880) e o outrora inquisidor Louis Rochette foi estrangulado e queimado na estaca por abraçar o protestantismo em 1538.

O ponto de virada de perseguições esporádicas para uma formalização foi o Caso do Cartazes de 1534, onde protestantes espalharam propaganda anticatólica em Orléans, Blois e Paris (HOLT, 2005). Após o ocorrido, Francisco queimou os hereges envolvidos em uma procissão macabra e passou a detestar cada vez mais minorias religiosas a partir da privação de direitos básicos, atentando não apenas contra eles mas também contra os valdenses que em 1545 sofreram o Massacre de Merindól onde 8000 pessoas morreram e 26 aldeias foram destruídas.

Em 1540 proclama o primeiro de uma série de éditos voltados a reprimir os protestantes, o Édito de Fontaineblue que decreta a heresia protestante como "uma grande traição contra Deus e a humanidade, perturbação em nosso estado e tranquilidade pública" e digna de tortura, perda de propriedade, humilhação pública e morte. Ficam explícitos os intentos da coroa em exterminar do país tal infecção e uma legislação anti-heresia começou a ser desenvolvida.

Houve uma crescente influência na corte por parte da casa de Guise, um ramo da casa de Lorraine fundada por Cláudio de Lorraine, príncipe de sua casa elevado ao cargo de duque no governo de Francisco. Contava com o apoio do Reino da Espanha e o Ducado de Savoy e possuía uma alegada descendência de Carlos Magno, o heroico monarca dos francos que originou o Império Carolígnio, o que dava a seus supostos descendentes autoridade histórica sobre a nação. Era favorecida pelo cardinato francês e servia como instrumento do catolicismo para reconquistar a autoridade ameaçada pelos protestantes, possuindo tanta autoridade quanto a casa reinante.

O crescimento da repressão

Les Huguenots: Acte V scène 2 (1836), Achille Devéria em 
Bibliothèque Nationale de France

Sob o governo de seu filho, Henrique II (1519-1559), a perseguição se intensificou e uma sucessão de éditos promulgados pela coroa restringiu a liberdade e os direitos civis da população calvinista, em especial o Édito de Châteaubriant (1551) que proibiu os huguenotes de adorarem, reunirem-se e discutirem em público sobre sua fé. O rei era cruel e violento, em especial com os pastores, queimando-os em estacas ou cortando suas línguas por proferir heresias a partir de uma corte especial criado pelo seu pai em 1545, a Chambre Ardente, instalada no próprio Parlamento de Rouen e encarregada pelo próprio papa para condenar os hereges que blasfemassem contra a Santa Mãe Católica.
 
Henrique dividia as prioridades entre destruir o protestantismo e se opor aos habsburgos, inimigos históricos dos francos, chegando a impedir que os bispos da França comparecessem a sessão do Concílio de Trento presidida pelo papa pró-habsburgo Júlio III (HOLT, 2005). Isso desenvolveu um movimento pró-galicano que ameaçou gravemente as relações franco-romanas, demonstrando que interesses nacionais tornavam-se mais importantes que a submissão ao papa.

A repressão foi mantida pelo Édito de Compiègne (1557) que declarou pena de morte a todo aquele que adotasse fé diferente a fé católica, tendo efeitos praticamente imediatos quando uma multidão de fanáticos invadiu um culto huguenote realizado dentro de uma casa e 130 pessoas foram presas em setembro do mesmo ano. Poucos dias depois, três deles foram queimados em praça pública, a gosto da população.

O desejo de uma fé única e nacional foram colocados em prática anos antes por Isabel, a Católica (1451-1504), impondo a Inquisição com força em território espanhol a fim de perseguir judeus e mouros que restassem nos territórios ibéricos. Tais manifestações eram habituais no cenário controverso que marcava a transição medieval à modernidade e se perpetuava até mesmo em territórios protestantes, como na República de Genebra onde constantes expulsões e excomunhões ocorriam para manter o calvinismo dominante. Contudo, a perseguição sistemática era uma particularidade de nações católico-romana, apoiadas pela organização de séculos atrás do Santo Ofício e um aval constante do sucessor de São Pedro.
 
Ao assumir, o monarca francês jurava a proteção da fé católica e o comprometimento a exterminar heresias nunca pareceu tão evidente. Havia uma forte oposição por parte da nobreza e dos militares, contando com nomes como Antoine de Navarra e Gaspar de Coligny favorecendo o lado protestante, o qual esperava ver uma tolerância maior após a morte de Henrique num duelo de justa. Quem assumiu foi seu filho, Francisco II (1544-1560), controlado pelas maquinações da Casa de Guise a partir dos tios de sua esposa, Maria I da Escócia, contando com o sucessor de Cláudio como duque de Guise, seu filho Francisco II de Lorraine o cardeal Carlos de Lorraine-Guise. 
 
Sua postura pouco conciliatória incitou a conspiração de Amboise (1560), uma tentativa dos opositores de promover um golpe de Estado que deporia o rei e sequestraria seus conselheiros para proclamar um nobre favorável ao protestantismo. O plano falhou e 1200 seguidores de Godofredo de Barry foram mortos e o proeminente líder Louis de Bourbon foi preso como idealizador do plano, isento um tempo depois. A conspiração viria a preparar o terreno para uma série de conflitos muito maiores e trágicos ao reino francês.

A saúde frágil de Francisco II resultou em sua morte em um ano de reinado, o que levou sua mãe Catarina de Médici (1519-1589) a assumir o cargo como regente de seu filho mais novo, Carlos IX, de apenas 10 anos. O que se observa no início é uma política mais conciliatória e tolerante para manter o domínio real, organizando o Colóquio de Poissy em 1561 para apaziguar as diferenças doutrinárias e proclamando em 1562 o Édito de Saint-German, chamado também de Janeiro, que finalmente reconheceu a existência dos huguenotes e concedeu liberdade parcial a eles. Entretanto, o parlamento francês tinha o poder de fazer ressalvas na lei e provocou um atraso intencional que resultou na permissão para que o duque Francisco II de Lorraine invadisse um culto huguenote em Wassy no ano de 1562 e junto com outros partidários nacionalistas assassinasse 60 protestantes, evento conhecido como Massacre de Wassy.
 
As políticas tolerantes de Catarina foram alvo de objeção desde o início e o plano de Francisco constava em instaurar uma a aliança trina com a Espanha e a Santa Sé e convencer os príncipes luteranos a abandonar o favorecimento aos calvinistas, minando-os em um complô fora das fronteiras. O plano não ocorreu, mas a passagem por Wassy foi o suficiente para a manifestação de ódio da classe católica.

Os Tumultos de Toulouse no mesmo ano ocasionaram na morte de 5000 pessoas, grande parte deles huguenotes, expondo as tensões que ocorriam entre as duas facções e a revogação do Édito de Saint-German levou a abertas ofensas, ocorrendo massacres contra os huguenotes em Sens e Tours. Isso dividiu o país absurdamente e uma guerra civil se tornou inevitável. Por onde os calvinistas passavam, marcas de destruição dos santos e catedrais católicas ocorriam, assim como a expulsão e derrubada de templos protestantes por parte de seus oponentes. A guerra estava feita, ocasionada pela intolerância e constantes ameaças a existência do protestantismo francês.

As Guerras Religiosas Francesas

O ocorrido em Wassy foi o estopim para as Guerras Religiosas Francesas, oito sucessivas guerras civis que perduraram de 1562 a 1598 e se caracterizaram por uma instabilidade política por todo o país e um saldo trágico de 3 milhões de mortos, sendo o pior conflito religioso da história da Europa antes das Guerras dos Trinta Anos (1618-1648). A reação imediata foi comandada por Louis de Bourbon, tomando a importante cidade de Órleans, levando a oposição das casas de Condé e Montmorency, uma das mais antigas do país, expressada na sangrenta batalha de Dreux (1562) que resultou na vitória católica. Após a morte do líder católico Francisco de Guise, as casas entraram num acordo temporário através do Édito de Amboise (1563), iniciando um período de paz de quase 5 anos.
 
Como se pode deduzir, a motivação dos conflitos não foi puramente religiosa. Os embates entre casas sempre resultavam em guerras, tais como a Guerra das Rosas (1455-1485), na Inglaterra, e a Guerra Italiana de 1551-1559, chamada também de Guerra entre Habsburgo-Valois, tudo devido a ameaça que as casas de Bourbon e Condé representavam ao trono francês e a sua sucessão dinástica. A religião era o principal, mas não o único, fator que diferenciava os nobres e os colocava uns contra os outros, sendo eles os responsáveis pelos conflitos terem tomado tamanha dimensão. 


O comandante François de Beaumont, um dos mais cruéis, iniciou favorecendo os huguenotes apenas por contenda contra a casa de Guise. Quando os mais religiosos se opuseram as suas políticas e passaram a vê-lo com desconfiança, ele mudou seu lado em 1567 e batalhou pelos católicos, revelando que nunca batalhou pelo direito de culto dos huguenotes. Antoine de Bourbon passou do lado huguenote para o católico e os favoreceu no cerco de Rouen, onde tornou a morrer em um tiro de surpresa.

Do outro lado, isso não era tão comum, contudo muitos de Valois batalhavam mais pela unidade nacional, o que incluía a consequente união confessional, do que pela guarda da fé católica em si. Dentro dessa instabilidade política, a casa de Montmorency estava dividida em favorecer uma ala moderada dos huguenotes de estado (chamados de Politiques) e apoiar o lado católico quando lhes era convencional. Essa mudança de comportamento prova a forte influência política em determinados momentos da guerra.

A família real tomou decisões pacificadores no passado, partilhando cemitérios e consulados e devolvendo propriedades outrora tomadas nos intervalos de paz, promovendo uma política de coexistência de fés que não era aprovada pelos parlamentares e especialmente pelo clero. Esse conflito de interesses era ainda mais agravado pelo fato da adesão ao catolicismo não significar vínculos permanentes com outras nações, como no caso da Espanha, onde a semelhança confessional oportuna para uma aliança tardou pelos projetos de poder concorrentes diretos contra os da França.
 
A organização militar promovida pelos huguenotes foi fundamental para que sobrevivessem, abrigando-se em cidades fortificadas pelo protetorado protestante organizado por Louis de Bourbon, começando por Orléans e futuramente expandindo a outros pontos estratégicos foram tomados como Blois, Angers e Tours, vindo a tomar a grande cidade de Lyon meses depois.

Azul claro: Áreas de domínio huguenote, 1598
Azul escuro: Áreas de domínio da Liga Católica, 1590
Tesouras apontadas para baixo: Derrotas dos huguenotes, com datas
Tesouras apontadas para cima: Vitórias dos huguenotes, com datas

A segunda guerra civil só retornou depois das ameaças de uma aliança com Filipe II da Espanha, agressivo contra os calvinistas neerlandeses, levando a uma tentativa de golpe contra Carlos IX e no Michelade (1567), em Nîmes, onde 24 padres foram mortos por protestantes revoltosos devido ao fracasso anterior.

A insatisfação com os éditos e a hostilização contra protestantes na capital e em outros locais levou a eclosão da segunda guerra, com final semelhante a primeira. A paz que se seguiu não durou muito e uma terceira guerra ocorreu, estendendo os conflitos as zonas rurais e consolidando alianças internacionais, Isabel I, rainha da Inglaterra, e Wolfgang de Zweibrücken favorecendo os huguenotes e financiando apoio a eles e o reino da Espanha e ducado de Toscana favorecendo o lado católico.

Apenas em 1570, após o édito que encerrou a terceira guerra, cidades foram legalmente concedidas pela coroa como refúgios protestantes, como La Rochelle e Cognac, assinando um armistício em St. Germain. Contudo, o evento mais importante ainda estava por vir.

O Massacre de São Bartolomeu (1572)

O Ducado de Guise não permaneceu inerte perante o calvinismo e reagiu desde o início de sua proliferação, assumindo o papel de protetores da fé católica. Contando com Joana d'Arc como símbolo de bravura, os fundamentalistas passaram a culpar os calvinistas por todo desastre que ocorria na França e acreditaram serem punições de Deus por tolerar heresia em solo nacional. Seu comandante era o duque Henrique de Guise, corajoso nobre que jurou vingança após perder seu pai aos 12 anos, futuramente convocando para o duelo Gaspar de Coligny e Anne de Montmorency, os quais negaram suas tentativas.
 
Participou das batalhas de Saint-Denis e Jarnac entre 1567 e 1569 mas sua maior arma foi a maquinação de um tremendo banho de sangue junto com o conselho real. O mais recente tratado de paz foi complacente demais segundo os católicos, desagradando o clero e os mais extremistas. Como um complemento a este, foi firmado o casamento entre Margarida de Valois, irmã do rei Carlos IX e Henrique de Navarra, príncipe da casa de Bourbon. Os protestantes acreditaram que uma reconciliação estava por vir e milhares deles foram até Paris, incluindo representantes huguenotes que tinham de testemunhar o acontecimento histórico.

Dentre eles estava Gaspar de Coligny, comandante das forças protestantes após a morte do duque de Condé na terceira guerra e odiado pela corte por supostamente influenciar o rei a favorecer rebeldes protestantes neerlandeses e pela sua participação na morte de Francisco de Lorraine, o antigo duque de Guise. No dia seguinte às celebrações, Coligny foi baleado numa tentativa de assassinato, muito provavelmente ordenada por Henrique de Guise, saindo ferido mas com vida. Isso foi visto como uma ameaça a segurança protestante e o conselho, liderado pelos Guise, organizou tropas pela capital para exterminar a liderança huguenote em um ataque que sequer lhes daria a oportunidade de defesa. Carlos não foi completamente a favor no início mas sua mãe e os outros conselheiros o persuadiram a tal ponto que o diário de seu irmão Henrique III registra que ele teria dito "Então matem todos para que nenhum sobre para me repreender".

Le Massacre de la Saint-Barthélemy (c. 1572–1584), por François Dubois; Coleção do Musée cantonal des Beaux-Arts, Lausanne.

Os portões foram fechados e ao toque do sino, os militares e o povo insurgiu contra seus inimigos. As tropas invadiram a casa de Coligny, matando-o e jogando seu corpo pela janela e nobres protestantes foram covardemente mortos no Louvre ou nas ruas de Paris, pegos na surdina da noite do dia 24 de Agosto, celebração litúrgica de São Bartolomeu.
 
O massacre saiu do controle do rei e um tremendo banho de sangue correu pelas ruas, crianças, mulheres e idosos mortos a facadas, tendo suas casas invadidas por católicos que as identificavam a partir de cruzes brancas previamente pintadas. Acreditavam ser uma matança sancionada pela coroa e pela Igreja e não ficariam de fora, colaborando no genocídio de dezenas de milhares de inocentes em nome da pureza religiosa. Nas palavras de Teodore Beza, eles foram mortos "como ovelhas no matadouro", expressão usada pelo secretário papal Camillo Capilupi em Lè Strategéme de Charles IX (p.178), satisfeito, assim como muitos católicos, pela alegada justiça divina contra os rebeldes.

Em sucessivos dias, os calvinistas foram mortos em outras cidades como Meaux, Troyes, Orleáns, Toulouse e Bourdeaux, sem ter escapatória. O filósofo Petrus Ramus e compositor Claude Goudimel, ambos huguenotes, foram mortos pela tragédia. Sir Francis Walsingham, embaixador inglês, escapou por pouco. Muitos tentaram se refugiar em mosteiros mas acabaram sendo presos e chacinados, obrigados a uma emigração forçada e repentina.O massacre não foi um dia, mas uma temporada como bem observou o historiador Jules Michelet. 

Este é o relato de um contemporâneo segundo o historiador Clyde Manchrek:

As ruas estavam cobertas de corpos mortos, os rios ficaram manchados, as portas e os portões do palácio respingados com sangue. Carroças carregadas de cadáveres, homens, mulheres, garotas e até mesmo crianças eram jogadas no Sena, enquanto que torrentes de sangue corriam em muitas áreas da cidade (...) Uma menininha foi banhada no sangue de seus pais assassinados e ameaçada com o mesmo destino caso viesse um dia tornar-se huguenote” (MANCHREK, 1965). 
O resultado do genocídio é incerto, contudo as estimativas mais baixas estão entre 8.000 mortos em todas as províncias, sendo 2.000 apenas em Paris, segundo a Enciclopédia Católica, porém há estimativas muito maiores como a dada pelo historiador Jacques-Auguste de Thou de 30.000 mortos e a de por um contemporâneo, Maximilien de Béthune, duque de Sully, que por pouco escapou com vida, estimando em 70.000 mortos, enquanto um arcebispo de Paris Hardouin de Péréfixe estimou 100.000 mortos ao todo.
Esse último número é exagerado, mas apenas se considerarmos os que sofreram uma morte violenta. Mas se adicionarmos aqueles que morreram de miséria, fome, sofrimento, velhos abandonados, mulheres desabrigadas, crianças sem pão, - todos os miseráveis cuja vida foi encurtada graças a essa grande catástrofe, veremos que a estimativa de Peréfixe está abaixo da realidade (FÉLICE, 1851, p.217)
A revolta popular contra os huguenotes era sem embasamento. A perseguição os obrigou a se reunirem em secreto, formando sínodos e consistórios que permitiam colaboração mútua, tal como os judeus,     criando rumores sobre uma organização secreta para os católicos supersticiosos, contendo rituais devassos onde homens e mulheres se reuniam em orgias, tudo por causa do exame bíblico e da liturgia comum onde os membros não se dividiam por gênero. Tais boatos apenas fortaleceram o ódio comunitário contra essa minoria religiosa que batalhava pelos direitos de sua fé.
 
Massacre de São Bartolomeu,
Giorgio Vasari, 1572, Sala Regia.
A Igreja Católica não foi inocente nesse processo, longe do que argumentam os apologistas católicos. O papa Gregório XIII (1502-1585) celebrou uma missa Te Deum após saber do ocorrido e fez até mesmo uma medalha em celebração, contando com seu rosto e a frase UGONOTTORUM STRAGES, traduzida por "Derrocada dos Huguenotes" (SCHAFF, 1910). Uma pintura foi feita sob sua ordem por Giorgio Vasari na Sala Regia, presente no Vaticano até a atualidade. O comportamento de favorecer a Liga Católica foi seguido pelo seu sucessor, Sisto V (1521-1590), privilegiando Filipe II e fortalecendo o anti-protestantismo no continente.

Se pesarmos todas as circunstância de São Bartolomeu (...) devemos estar convencidos que é o maior crime da Era Cristã, visto que a invasão dos góticos e vândalos, as vésperas sicilianas, o extermínio dos albigenses, os horrores da Inquisição, os assassinatos dos espanhóis no Novo Mundo, atrozes como são, não mostram o mesmo grau de violação de todas as leis, divinas e humanas (FÉLICE, 1851, p.220-221)
O massacre tornou os huguenotes opositores da própria existência da monarquia francesa, em vez de contrários apenas a suas políticas. A posição de Calvino em Readings of Prophet Daniel de 1562 era a de que um rei injusto e tirânico perde sua autoridade temporal, pensamento usado pelos teóricos huguenotes como François Hotman e Simon Goulart após o massacre como justificativa para a soberania popular e as primeiras formulações de contrato social, conceito político que foi só foi surgir oficialmente muitas décadas depois.

Este é um bom momento para ressaltar o papel de Calvino como líder espiritual não apenas de seu centro genebrino mas também de comunidades distantes por todo o continente. O reformador escocês John Knox (c.1514-1572) liderou a reforma presbiteriana após conhecê-lo pessoalmente em Genebra e continuou sendo influenciado por seus tratados e cartas mesmo após seu retorno ao país. Os huguenotes receberam de Calvino cartas consoladoras que os apoiaram em momentos de perseguição e com a intenção de formar ministros destinados as congregações de huguenotes e de refugiados, fundou a atual Universidade de Genebra em 1559. Como contemporâneo dos fatos até sua morte em 1564, Calvino nunca ignorou a necessidade de seus irmãos estrangeiros e ainda que ficasse muito centrado na Confederação Helvética, suas cartas atravessavam milhares de milhas em direção aos fiéis.

O massacre levou imediatamente a quarta guerra, ainda mais política que as anteriores pelo desconforto que o massacre gerou até mesmo entre católicos moderados que começaram a questionar o valor da unidade religiosa. Foi encerrada graças as concessões do Édito de Boulogne em 1573, porém insuficiente comparado ao anterior. A quinta guerra foi marcada pela disputa entre Carlos IX e seu irmão mais novo, Francisco, duque de Alençon, assim como revoltas huguenotes por todo o país para reestabelecer territórios perdidos, encerrada graças ao apoio do duque de Alençon aos huguenotes, forçando o atual rei Henrique III a assinar aquela que foi conhecida como Paz de Monsieur em 1576.

A sexta guerra veio da Liga Católica, agora plenamente estabelecida pelo ultra-católico Henrique de Guise, frustrada com as concessões aos calvinistas e usufruindo de um maior apoio entre a classe média temerosa por rechaçamento. O apoio dos duques de Mayenne, Aumale, Lorraine e outros levou a uma vitória sobre os interesses huguenotes, enfraquecidos e com poucas tropas alemãs e inglesas para apoiá-los.

Conclusão

A morte dos huguenotes nos vários massacres ressalta o renascimento do martírio cristão, marcado por obras como Histoire des vrays tesmoins (1554, original, 1570, edição com este nome) de Jean Crespin e Histoires des pérsecutions, et martyrs de l'Église de Paris, depuis l'An 1557, jusques au temps du Roy Charles neufiesme (1563) de Roche Chandieu. O sacrifício e desapego dos bens materiais que os mártires possuíam do início da Igreja retorna no espírito dos fiéis huguenotes que assim como Cristo havia dito (Mt 5;10), foram perseguidos por causa da justiça.

Sabemos, acima de tudo, que nada passa impune diante dos olhos de nosso Deus. A casa de Valois foi "extinta sob a adaga, e quase todos os atores no São Bartolomeu perecerem sob morte violenta" (FÉLICE, 1851). O nosso Senhor é justo e o sangue dos mártires será vingado no fim dos tempos.

O fechamento desta história será contado na segunda parte dessa publicação que creio que virá em breve. Todas as fontes usadas estão no final desta publicação. 

Graça e paz a todos vocês, 
Luigi Bonvenuto.




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