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A oração como meio de contato entre Deus e os homens


A oração sempre fez parte da história da humanidade em seus ritos e tradições religiosas. Alguns estudiosos consideram a oração como o modo primário de expressão religiosa e comparam o papel da oração na religião com o pensamento racional na filosofia, ou seja, ambos são indispensáveis para suas respectivas áreas.

Dada sua relevância, como ela foi passada durante as eras? Quais foram as suas modificações? E um dos questionamentos mais importantes, por que orar se Deus já sabe de tudo? É sobre isso que desejo escrever hoje.

A história das orações

Possuímos inúmeros meios para conversamos uns com os outros, ligação, videochamada, chat, call e por que não a nossa própria voz, o meio primordial de comunicação humana. Tudo isso está a nossa disposição quando queremos estabelecer uma conexão com outro ser humano, passando informações e desenvolvendo uma interação social. Contudo, como o ser humano faria para entrar em contato com o místico, com aquilo que ele não vê e não toca e no máximo representa?

Métodos diversos foram utilizados. Nas religiões tribais indígenas, diversificadas e particularizadas em cada povo, chamadas geralmente de animismo (crença em uma essência espiritual nos objetos, lugares e criaturas) não há uma concepção exata de oração mas há tentativas de ligar-se ao místico através de súplicas, repetindo as divindades e outros seres celestiais para terem piedade.

Orações estavam presentes entre os aborígenes australianos, esquimós, semangs do Sudeste Asiático e outros povos porém se assemelhavam mais a rezas e súplicas pré-definidas enquanto a oração espontâneo se tornou mais comum entre os nativos das Filipinas e sistemas litúrgicos foram encontrados entre pigmeus do Gabão. Entre 2000-1000 a.C as orações feitas pelos assírios e babilônicos pouco mudaram, sendo as formas mais antigas feitas através de hinos e litanias direcionadas a deusa da lua Sin e ao deus Tammuz

Escarevelhos do Egito Antigo (3º a 1º milênio a.C) registram preces e pedidos de proteção aos Deuses, especialmente a Amom (futuramente Amom-Rá).

O fato é que todos os povos buscavam uma forma autônoma de se encontrar com o divino, usando de gestos e palavras para elevarem a alma.

Próximos de Deus

Voltando-se ao povo judeu, encontramos uma comunicação entre o homem e Deus desde Abraão quando a aliança com o Senhor é firmada (Gn 15), sendo o cântico de adoração mais antigo da Bíblia o de Moisés, registrado em Êxodo (Ex 15:1-18). O livro de Salmos é recheado de preces e orações que exaltam a grandeza de Deus (Sl 19 e 24) e súplicas por arrependimento e socorro como o Salmo 28:

"A ti eu clamo, Senhor, minha Rocha; não fiques indiferente para comigo. Se permaneceres calado, serei como os que descem á cova. Ouve as minhas súplicas (...) Salva o teu povo e abençoa a tua herança!" (Sl 28:1-2a; 9)

Era o desejo de Deus ter proximidade com o seu povo e os homens mais admirados das histórias bíblicas são aqueles que se comunicavam constantemente com Ele, curvando-se e ignorando todo o orgulho para buscar a ajuda do Soberano (Js 7:6-7). Deus nos leva a adorá-lo para mostrar a nossa dependência e segundo a oração ensinada pelo próprio Cristo (Mt 6:9-13), através da oração nós glorificamos, agradecemos e pedimos ao nosso Pai sob o nome de seu Filho e através do Santo Espírito herdado a nós (Ef  6:18).

Em 2 Crônicas 7 temos uma das mais belas declarações do Senhor a nós:

"Se meu povo, que se chama pelo meu nome, se humilhar e orar, buscar a minha face e se afastar dos seus maus caminhos, dos céus o ouvirei, perdoarei o seu pecado e curarei a sua terra" (2 Cr 7:14)

O Senhor nos perdoa e nos cura porém estabelece uma condição, que oremos e nos humilhemos perante ele como as verdadeiras criaturas inferiores que somos, exaltando a sua superioridade e graça para com as nossas vidas miseráveis e submissas a Sua magnificência. Somos instruídos a apresentar a Ele nossos pedidos  e súplicas para diminuir a ansiedade (Fp 4:6) e para viver com tranquilidade, piedade e dignidade.

A oração não só tem o propósito de adorar, confessar e rogar a Deus como também interceder pelos irmãos. Paulo intercede pela salvação dos israelitas (Rm 10:1) e recomenda aos seus que façam "súplicas, orações, intercessões e ações de graças por todos os homens" (1 Tm 2:1), incluindo orar pelos que nos maltratam como o próprio Cristo. (Lc 6:27-28)

Para tudo isso a oração é útil e promove edificação e fortalecimento espiritual, fundamentando nossa fé e nos tornando filhos de Deus mais honrosos, dignos e dedicados.

Ainda assim a dúvida permanece, se Ele tudo sabe por que exige que confessemos nossos pecados?

A Soberania sobre a confissão

Ainda que Deus saiba de todas as coisas (1 Jo 3:20), constantemente vemos pessoas assumindo seus erros e revelando-os (2 Sm 12:13). A razão principal não é para contar a Deus o que fizemos como se ele não soubesse, necessitando que o informemos de nossas atitudes, mas para que reconheçamos que só seremos ouvidos se aceitarmos nosso erro e pedirmos por ajuda para corrigi-lo.

Um exemplo bastante claro é o do rei Ezequias, piedoso e fiel como nenhum outro (2 Rs 18:5). Mesmo sendo devoto e obediente aos mandamentos do Senhor, ficou gravemente doente e quase morreu, caindo em estado gravemente debilitado (2 Rs 20:1).  Deus poderia tê-lo curado desde o começo, antes mesmo que saísse uma palavra de sua boca porém esperou que seu servo viesse e chorasse diante dele, suplicando por misericórdia (20:3). Logo depois ele ainda se tornou orgulhoso e não reconheceu o favor de Deus, tendo de se prostrar novamente (2 Cr 32:21-26)

Isso é só um de vários outros que poderíamos dizer pois ao longo de toda as Escrituras Deus sabe o que está no coração de seus filhos contudo tem ciência da obstinação de nosso coração. Somos teimosos, rudes, pertinentes e ingratos, condenados por um coração corrompido (Mt 15:19). Enquanto não nos tornamos nada ainda nos acharemos dignos de glória e honraria, sem prestar a devida adoração ao nosso Criador e reconhecer nosso estado de dependência.

Conclusão

Desabafar nossa culpa para um Pai que ouve continuamente (Sl 4:3) é realmente transformador. Nossas orações não mudam os planos imutáveis de Deus mas demonstram nossa dedicação e quanto nos importamos pelas pessoas e pelo nosso estado diante o Pai. Não torne a oração um mero hábito antes de dormir e comer mas esforce-se para que seja um meio de comunicação diária com o provedor de toda a vida e sustento.

Graça e paz a todos vocês,

Luigi Bonvenuto

Fonte:
https://www.britannica.com/topic/prayer
https://www.ucg.org/beyond-today/blogs/a-brief-history-of-prayer
https://www.learnreligions.com/what-is-animism-4588366 
https://www.christianitytoday.com/history/issues/issue-59/place-of-prayer.html
SARTORE, Andrei Medeiros. A importância da oração na vida do Cristão. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 04, Ed. 01, Vol. 06, pp. 146-152 Janeiro de 2019. ISSN: 2448-0959 

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