Pular para o conteúdo principal

A colonização huguenote na Flórida e seu massacre - 1565

Todos conhecem a grande jornada dos peregrinos puritanos que chegaram a Massassuchessets em 1620, buscando liberdade religiosa longe da hegemonia anglicana. Esse marco histórico é quase sinônimo da fundação dos Estados Unidos, pois ali o primeiro assentamento inglês foi definitivamente estabelecido. Contudo, seria esse o primeiro assentamento europeu de forma geral, ou mais especificamente, seria a primeira vez que protestantes fugiam da perseguição de seus direitos religiosos?

Conheça a história das expedições huguenotes na Flórida (1562-1565) e descubra como eles foram responsáveis pela fundação da primeira cidade norte-americana.

Tensões na França 

A Reforma francesa foi umas das mais turbulentas dentre as que ocorreram no século XVI. Enquanto a Inglaterra anglicana caminhava para a paz religiosa após instabilidade interna e os estados alemães luteranos conviviam em harmonia através da Paz de Augsburg (1555) e sua política de tolerância condicional, a França se via afundada em aparentemente intermináveis conflitos religiosos.

A casa de Valois começou concedendo limitada liberdade aos protestantes através das políticas conciliatórias de Francisco I (1515-1547), retomadas no começo do governo de seu neto Carlos IX (1560-1574), porém a pressão da radical casa de Guise e do intolerante clero romano no país somados ao temor que a Reforma causava na estabilidade de seu reinado o levou a tomar políticas mais rígidas, perpetuadas por seu sucessor Henrique II (1547-1559) e manifestas no tribunal da Chambre Ardente

Isso gerou um grande desagrado por parte dos protestantes que aguardavam uma postura mais tolerante, permanecendo a reclamar por maiores direitos de liberdade religiosa. Isso levou a acontecimentos como o “Caso dos cartazes” (1534) e atos de iconoclastia (destruição de ícones) nas décadas 50 e 60, mostrando a insatisfação dos huguenotes com seus governantes católicos. Quanto mais os protestantes se mostravam insatisfeitos, mais eram perseguidos: 24 reformistas foram mortos por causa de cartazes antipapistas (LONGUEVILLE, 2020) e dezenas deles fugiram para a Suíça assim como Guillaume Farel (1489-1565) havia feito.

No mesmo período que a Reforma eclodia nos diversos países europeus, também se acelerava a corrida por terras no Novo Mundo. Francisco estava insatisfeito com a divisão promovida pela Igreja e chegou a questionar “gostaria de ver a cláusula de Adão pela qual a minha parte do mundo deveria ser negada”, ironizando o fato de o globo estar dividido entre as potências marítimas de Portugal e Espanha. Gradativamente os navios piratas enviados pela coroa passaram a invadir territórios ibéricos, atendendo as intenções colonialistas dos galicanos.

Quanto a Flórida, Juan Ponce de León descobriu-a em 1513 e em 1559 o dom Tristán de Luna y Arellano tentou estabelecer um assentamento em Pensacola que fracassou em 1561 devido a complicações com os nativos. Falhando ou não, o importante era ter sido o primeiro a identificar o território, regrada adotada por todos os países colonialistas, o que de fato os espanhóis conseguiram e fortaleceram a reclamação da península ao enviar quatro grandes expedições em menos de 30 anos.

Giovanni da Verrazzano (1485-1528), explorador italiano que serviu Francisco I, explorou a costa atlântica de Labrador até as Carolinas, possivelmente chegando a costa norte da Flórida em 1524, mas sem registro confirmado. A França se considerava detentora da terra vista e reclamada por Verrazzano, fator importante para os futuros conflitos.

Busca pela paz religiosa

Os franceses haviam tentado colonizar a América do Sul com a França Antártica (1555-1562) e os huguenotes viram nela uma oportunidade por liberdade de culto, sendo mandados para lá em 1557. Infelizmente, o resultado foi um grande infortúnio onde quatro se tornaram mártires e o resto foi expulso de volta para o país. A França assinou um tratado em 1556, concordando em não comercializar ou explorar as Índias Ocidentais sem a permissão da coroa espanhola, porém esse frágil acordo estava para ser quebrado.

"A Reforma enraizou-se fortemente nas cidades da Normandia e as da costa Atlântica, os portos mais experientes no comércio e incursão envolvendo o Novo Mundo" (SAUER, 1975, p.196)

Os protestantes calvinistas permaneceram buscando um local onde pudessem exercer sua religião livremente e a península do Atlântico onde flui o Saint John’s River, território da atual Flórida, foi o escolhido, tanto pelo alegado direito que a França teria sobre ele quanto pelo fato de ser mais próximo do que as terras sul-americanas. Contavam com os conhecimentos adquiridos por Guillaume le Testu (1509-1573), explorador huguenote mandado ao Brasil em 1551 para formar um mapa cartográfico que viria a ser usado por outros navegantes, traçando importantes rotas marítimas.

Em 18 de fevereiro de 1562, Gaspard II de Coligny (1519-1572), almirante francês e líder dos huguenotes nas Guerras Religiosas (1562-1598), enviou dois navios do porto de Le Havre comandados por Jean Ribault (1520-1565). Eles avistaram a costa leste da Flórida em torno de abril e no mês de maio se aproximaram da atual Jacksonville, onde está o St. John’s River, nomeado “Rio Maio” (Rivière de Mai) pelo mês em que o viram.

Em 17 de maio entraram numa grande abra nomeada Port Royal e descrita por Ribault como “um dos maiores e mais belos paraísos do mundo”. Ergueu um monumento de pedra para marcar a presença francesa e estabeleceu um assentamento permanente chamado Charlesfort, em homenagem ao rei Carlos IX (1560-1574), deixando 26 homens para gerencia-lo após sua partida de volta a França. Esse território abrange hoje Paris Island da Carolina do Sul, sendo um importante marco na história do país.

Charlesfort progrediu lentamente com o capitão Albert de la Pierria e os homens sob seu comando, porém deduziram erroneamente que haveria alimento suficiente no local para o ano todo. A vegetação exuberante rendia bons frutos, porém os mesmos não permaneceram no inverno rigoroso e eles foram obrigados a racionar intensamente a comida restante, dependendo de provisões rendidas gratuitamente pelos chefes indígenas Convexis e Ouade. Toda a estrutura chegou a ser incendiada, possivelmente por nativos opositores, mas com seus aliados puderam reconstruir.

Ribault retornou a França e se deparou com a primeira guerra civil dentre as guerras religiosas, ajudando os huguenotes em Dieppe mas partindo em breve para a Inglaterra, onde buscou apoio da rainha Elizabeth I (1558-1603) mas acabou preso por suspeita de espionagem. Charlesfort cairia em ruína após um motim movido contra a disciplina rigorosa de Albert, responsável por exilar um soldado chamado Lachere que quase morreu de fome. Os revoltosos se juntaram para matar seu líder e decidiram abandonar a colônia após mais de oito meses da ausência de Ribault, deduzindo que seu país não os ajudaria. 

Construíram um barco improvisado e partiram para França, enfrentando meses de fome e deriva, sendo obrigados ao canibalismo até serem resgatados por um navio inglês. O forte, então, foi dominado pelos espanhóis após um ano de existência. 

O Fort Caroline

Contudo, o almirante Coligny não desistiu. "Na mente do grande líder huguenote os espanhóis eram inimigos de seu país e sua religião, e sua grande paixão dominante era destruí-los ou, fracassando nisso, ao menos enfraquecê-los" (DOWNEY, 1934, p.33). Após a paz de Amboise (1563), Coligny organizou uma nova expedição e no ano de 1564, o tenente Rene de Laudonnière (1529-1574) contou com seu apoio para iniciar a colônia protestante no continente americano, juntamente do capitão Ribault. A frota inicial era pequena, em torno de três navios com 300 homens, contudo suas fortes motivações religiosas os mantiveram firmes nessa árdua expedição e partiram em 22 de abril de 1564, chegando ao destino em 22 de junho para estabelecer um segundo assentamento na mesma região. Foram bem recebidos pelos nativos que haviam ajudando a construir o Charlesfort anteriormente, um fato que o próprio Laudonnière agradeceu como sendo providência divina (LAUDONNIÈRE, p.67), mostrando o espírito de pacificação dos huguenotes com os indígenas

O primeiro rio que encontraram foi nomeado la Rivière des Dauphins (o Rio dos Golfinhos) por Laudonnière, partindo para o Rio Maio para ancorarem, região que agradou os colonos e onde eles fundaram o Fort Caroline, na atual região de Jacksonville (FL), honrando novamente o rei Carlos. 

Em 30 de Junho de 1564 eles guardaram o dia como uma ação de graças ao Senhor e ofereceram a primeira oração protestante da América do Norte:

“Nós cantamos um salmo de ação de graças a Deus, suplicando a Ele que lhe agradasse manter sua bondade costumeira para conosco”. (BUSECK, 2008).

O forte tinha uma forma triangular, o lado oeste voltado para a terra e protegido por um fosso erguido sobre relva feita em forma de parapeitos de quase 3 metros de altura. O lado voltado ao rio foi fechado por uma paliçada feita em forma de gabiões e o lado ao sul possuía uma espécie de bastião onde havia um armazém para munição. Todo o conjunto foi construído de areia e fascinas, feixes ásperos feitos de madeira bruta ou outro material usados para fortificar estruturas de barro. 

Jean Ribault estava previsto para zarpar em maio e se encontrar com Laudonnière na primavera de 1565, trazendo suprimentos e mais homens para trabalhar, mas atrasos de gestão e clima atrasaram em um mês e em junho de 1565 partia com cinco navios e 600 a 800 soldados e colonos, variando as estimativas, para reforçar o Fort Caroline. O próprio rei francês se opôs a empreitada de Ribault, ciente do grande perigo, porém ele resistiu e se dispôs a cruzar o oceano para ajudar seus irmãos protestantes que batalhavam por uma nova vida no Novo Mundo, partindo a despeito da oposição de sua terra natal e da Espanha. Ribault sabia que se atrasasse mais o retorno uma tragédia irreparável aconteceria ao Fort Caroline, assim como aconteceu com a grande fome que sofreram os colonos de Charlesfort.

A frota chegou ao Fort Caroline em 28 de Agosto, sendo momentaneamente confundidos com espanhóis por chegarem na surdina. Ribault contatou com Laudonnière que se mostrou muito feliz em revê-lo, tendo dito: "Meu capitão, louvado seja Deus que o encontramos vivos e especialmente que os relatos que foram feitos de ti eram falsos" (DOWNEY, 1934, p.62). Os relatos podem ser de sua morte ou de seu abandono da colônia.

Laudonnière recebeu uma carta sendo requisitado para retornar por ordens do próprio rei, tendo de partir para sua terra em breve. “Se não fosse pela intervenção dos espanhóis que contaremos em breve, a Flórida teria se tornado um território francês huguenote (...) é evidente que Carlos IX considerava  seriamente uma base francesa no novo mundo, mas a Nova França não seria na Flória, primeiro, pelos espanhóis, segundo, pelas guerras religiosas na terra natal." (DOWNEY, 1934, p.63)

Resposta espanhola

Naquele tempo, a América do Norte pertencia a coroa espanhola segundo o Tratado de Tordesilhas (1494), concessão feita pelo papa Alexandre VI (1492-1503) que nessa época era tida como um documento morto por outras potências europeias senão por Portugal e a própria Espanha. A notícia de uma colônia francesa revoltou o monarca Filipe II da Espanha (1556-1598), grande militante da Igreja Romana que se via como protetor da cristandade; a empreitada de Laudonniére o revoltou pela invasão ao seu terreno mas ainda mais pelos "hereges". Apelou ao Conselho das Índias que asseguraram o incontestável domínio espanhol sobre o território, considerando todos os huguenotes usurpadores de seu terreno, vendo a si mesmo com um dever não só político como religioso em defender a Igreja.

Imediatamente após a partida de Ribault, o rei espanhol despachou uma frota de onze navios tripulados por 600 soldados e muitos colonos, somando mais de 1000 tripulantes (BRYANT, 2020), comandados pelo general Pedro Menéndez de Aviles (1519-1574), cruel almirante vindo das Astúrias que recebeu a grande missão de exterminar os hereges e piratas das santas terras pertencentes a Espanha e a Igreja Católica. O objetivo era que em três anos houvesse um assentamento permanente espanhol que impedisse a organização dos franceses e seu fortalecimento na região. Menéndez desejava ir para a Flórida há mais de dois anos, pois o navio de seu filho, o Almirante Júan Menéndez, havia se perdido na latitude próxima da Carolina do Sul e após ter seu pedido negado constantemente, finalmente pode usar da oportunidade para ir ao território. Carregava também um ódio especial contra os huguenotes franceses por ocorridos de pirataria no Caribe e claro, por sua fé protestante, tendo em alta estima a atribuição dada a ele pelo rei.

Eles partiram em 29 de Junho, passaram pela América Central e sofreram obstáculos climáticos, perdendo seis navios no percurso, mas em 4 de setembro avistaram quatro veleiros franceses e manobraram para ancorar perto deles, voltados contra o galeão francês que liderava o pequeno grupo. A distância, Menéndez afirmou que aquele território pertencia a Filipe II da Espanha e inquiriu o capitão do galeão, autonomeado como Lorde Gastão, que respondeu estar trazendo soldados e suprimentos ao forte do rei francês. Ao perguntar o nome do capitão espanhol, ele respondeu, “Sou Pedro Menéndez de Aviles, Capitão General do Rei da Espanha, que veio enforcar todos os luteranos que encontrar aqui” (DOWNEY, 1934, p.72). Nessa época, os católicos entendiam protestantes como luteranos de maneira geral, termo pejorativo aos “hereges reformistas”.

Segundo o historiador David Abresú, Menéndez não esperava que houvesse uma frota tão grande de navios franceses, visto que o reforço de Ribault conseguiu antecedê-lo em poucos dias. Assim, após uma curta perseguição ocorrida entre eles e o galeão francês, os espanhóis recuaram para a primeira terra que haviam visto e em 8 de setembro, desembarcando na costa, fundam a vila de St. Agostinho, nomeada por ter sido vista no dia de sua festa de dedicação, 28 de agosto. Uma missa Te Deum foi celebrada pelo padre Francisco Lopez de Mendoza Grajales, a primeira da região.  Esse se tornaria o primeiro assentamento europeu permanente que perdurou no continente norte-americano.

O massacre

Os espanhóis estavam em número inferior, aguardando para o momento oportuno. Ribault formou um grupo de 500 arcabuzeiros na costa, prontos para embarcar caso necessário, mas o navio sumiu de vista e os franceses ficaram ansiosos durante os próximos dias. Faltava, então, uma tomada de decisão de um dos capitães para o conflito ocorrer.

O capitão Colette enviou uma carta a Ribault relatando a chegada do nau espanhola o que causou um temor no Fort Caroline. Junto do conselho, decidiram que os recém-chegados ficariam no forte para encerrar os trabalhos enquanto os homens de Laudonnière iriam ao combate por conhecerem mais o território, porém Ribault tinha um outro plano: uma carta de Coligny continha um post scriptum alertando sobre a vinda do capitão espanhol e sua possível invasão. Temendo que os espanhóis apenas escapassem embarcados nos navios, propôs que todos os soldados fossem nos quatro navios franceses e cercassem as naus ibéricas, obrigando-os a recorrer ao Fort Caroline onde encontrariam escravos franceses trabalhando, detendo-os facilmente em terra.

Esse foi um erro terrível de Ribault. Até mesmo Laudonnière, doente em sua cama, opôs-se ao plano por saber o clima cheio de furacões na região, mas a obstinação de Ribault permitiu que todo o conselho concordasse com ele, deixando um forte enfraquecido. Eles partiram no dia 10 de setembro e o artista Jacques LeMoyne, autor de um dos mais completos registros da expedição, quase foi com eles se não fosse pelo seu retorno de última hora por ferimentos não tratados. Logo após retornar, uma tempestade terrível sobressaiu contra os franceses e os levaram cinquenta milhas ao sul, chocando na costa próxima do Cabo Canaveral.

Laudonnière tomou todas as provisões ao seu alcance para a preparação de um ataque, porém apenas 17 dos que restaram eram capazes de usarem armas, estando todos os outros inabilitados ou sendo mulheres e crianças. A ausência de muitos soldados do forte permitiu que os espanhóis tomassem vantagem e após uma ordem autoritária de Menéndez, dez grupos de cinquenta homens saíram no dia 17 de setembro para desbravar a selva até chegar no forte. No dia 19 de setembro, a manhã era muito chuvosa e o guarda La Vigne baixou a guarda por duvidar que um ataque fosse acontecer naquele tempo, porém assim que as sentinelas saíram o trombeteiro alertou a presença de inimigos. Tendo informações de um traidor chamado François Jean (um provável nome falso dado por Le Moyne), os espanhóis conquistaram espaço facilmente entre os dias 19 e 20 de setembro, assassinando a maioria dos colonos e poupando mulheres e crianças, muitos destes sendo mandados a escravidão.

140 homens morreram e poucos tiveram a sorte de Laudonniére e do artista Jacques LeMoyne que conseguiram escapar em barcos e retornar a França. Eles se encontraram após fugirem freneticamente, partindo em navios na boca do rio St. John’s no dia 25 de setembro.

Grandchemin, um dos franceses que correu por sua vida, tentou avançar num espaço tomado pelos espanhóis e ao se deparar com eles, implorou de joelhos por sua vida. Os hispânicos, furiosos, sacaram suas espadas e o cortaram em pedaços, carregando fragmentos de seu corpo em suas armas. Alguns dos protestantes foram enforcados em árvores com a seguinte inscrição "Enforcados não como franceses mas como luteranos".

No dia 28 de setembro, os espanhóis foram alertados pelos indígenas timucua da tribo Utina, desafetos dos franceses, de que haveria um navio ”de homens brancos” naufragado ao sul, um dos navios da frota de Ribault. Menéndez enviou um grupo de 50 homens junto com indígenas guias para identificar o inimigo, dentre eles o padre Francisco Lopez de Mendoza Grajales que deixou um relato do acontecimento. O general, “iluminado pelo Espírito Santo”, vestiu-se como marinheiro e capturou um francês que informou que “todos, ou pelo menos grande parte deles, eram luteranos”. Outros afirmaram o mesmo quando disseram “Somos todos luteranos”, relatando serem 200 homens seguidores do capitão Ribault.

Menéndez revelou sua identidade e contou sobre o massacre no forte, mandando que ele voltasse e avisasse ao grupo que se rendesse e baixasse as armas, ou todos morreriam. Outro francês voltou assentindo com a rendição se suas vidas fossem poupadas. O “corajoso capitão-general”, Menéndez, recusou-se a fazer qualquer tipo de promessa, pois caso decidisse poupar a vida deles, seriam gratos, mas caso se recusasse não haveria nada para se queixar. Além disso, quando questionado se poderia enviá-los de volta a Europa, afirmou que “Se fossem católicos em vez de huguenotes, os enviaria de volta de bom grado”, porém como eram luteranos, via-os como inimigos e os enfrentaria “com fogo e espada, seja terra ou mar, pelo Rei, visto que vim aqui estabelecer a santa fé católico romana na Flórida” (DOWNEY, 1934, p.90).

Os franceses, sem comida e armas devida ao naufrágio, ficaram sem escolha, fizeram o que ordenou e se renderam incondicionalmente. Deixo agora o relato de Francisco:

“Descobrindo que todos eles eram luteranos, o capitão-general ordenou que todos fossem mortos; mas, como eu era um padre, tendo misericórdia em minhas entranhas, implorei a ele para garantir o favor de poupar aqueles que encontrássemos serem cristãos. Ele permitiu; fiz investigações e encontrei dez ou doze homens católicos romanos, os quais nós trouxemos de volta. Todos os outros foram executados, porque eram luteranos e inimigos de nossa santa fé católica. Tudo isso ocorreu no Sábado (Dia de de São Miguel), 29 de setembro, 1565. 

“Eu, Francisco Lopez de Mendoza Grajales, capelão de Nosso Senhor, certifico que a afirmação supracitada é o que de fato aconteceu” (LOPEZ, 1900)

O mesmo teria dito “Todos tiveram suas gargantas cortadas. Parece para mim que eu servi a Deus e Sua Majestade em punir eles por isso, pois pelo menos essa seita maligna não mais bloqueará nossos esforços em disseminar a boa palavra nesses países” (GAFFAREL, 1875, p. 229)

Em grupos de dez eram conduzidos e questionados se eram católicos professastes segundo as ordens do rei Filipe. Os que eram, foram conduzidos em segurança a St. Agostinho. Os que não, eram levados para uma duna e mortos na espada ou levando tiros na cabeça. Todos os corpos foram empilhados e queimados até serem uma mera pilha de cinzas na praia da Flórida. Foram 111 franceses mortos, a ampla maioria sendo protestanteApenas alguns poucos católicos, uns marinheiros bretões e quatro artesãos foram poupados, totalizando em torno de 16, mas é importante ressaltar que nem todos os católicos aceitaram a piedade do padre espanhol, preferindo morrer ao lado dos franceses, embora com religião distinta.

Duas semanas depois, os espanhóis se depararam com mais franceses da frota fracassada, incluindo Jean Ribault. Após ambos os lados ergueram bandeira branca, o capitão se encontrou com Menéndez e pediu por misericórdia caso um dia o espanhol se encontrasse na mesma posição, recebendo de volta a benfeitoria, porém ele negou, juntamente com a possibilidade de um grande pagamento. Assim como anteriormente, recusou a ser “fraco” por avareza e se fosse misericordioso, o seria livremente e não por dinheiro. 

Em 12 de outubro eles se renderam com um subentendido acordo de misericórdia e foram levados amarrados para St. Agostinho. Quando Menéndez perguntou, ele afirmou que eram todos luteranos e começaram a cantar o salmo “Domine momento mei” (Sl 131). Ao terminarem, o general afirmou que “eles eram pó e ao pó devem voltar”.

Quando perceberam que seriam mortos, clamaram pela aplicação do acordo feito com Menéndez, mas os espanhóis ignoraram. Um deles questionou a Ribault se ele realmente não esperava que quando desse ordens a seus soldados, esperasse que eles obedecessem. O capitão disse que sim e o soldado enfiou uma adaga em seu peito, dizendo “Eu também devo obedecer as ordens de meu comandante. Sou ordenado a te matar” (DOWNEY, 1934, p.94). O mesmo procedimento foi usado contra D’Ottigny, um dos capitães franceses e todo o resto foi ordenado ser morto por serem luteranos, inimigos de Deus e da Virgem Maria.

O massacre totalizou 134 vítimas, sendo conhecido como Massacre da Enseada Matanza. O ocorrido foi lembrado no Fort Matanzas (“matanças”) e no Rio Matanzas, nomeados pelo acontecimento trágico.

O número total de vítimas huguenotes foi de 385, podendo ser ainda maior por outros números. A causa do massacre foi explicitamente religiosa, fator ressaltado por Menéndez, Filipe e o professor contemporâneo Bartolomé Barrientos, que disse sobre o capitão: “Ele agiu como um excelente inquisidor; pós quando perguntado se eram católicos ou luteranos, eles ousaram proclamarem-se publicamente como luteranos, sem temor de Deus ou vergonha diante dos homens; e assim ele lhes deu a morte que sua insolência merecia. Até mesmo nisso ele foi misericordioso garantindo-lhes uma morte honorável e nobre, cortando suas cabeças, quando poderia legalmente queimá-los vivos” (LOKER, 2010, p.199)

O próprio Menéndez escreveu ao rei sobre outros franceses, em torno de 150, que haviam escapado do forte depois da invasão e que passaram a viver dispersos entre os nativos. “Visto que são luteranos e a fim de que tão vil seita não permaneça viva nessas partes, eu mesmo conduzirei em tal prudência e incitarei meus amigos, os indígenas, de sua parte para que em cinco ou seis semanas poucos deles, se algum [francês], permaneça vivo.” (NORMAN, 1968, p.148) Mostra-se orgulhoso que de uma arma de mil homens e doze navios, tenham sobrado dois barcos e 50 pessoas.

A carta deixada por Laudonnière culpa o atraso de Ribault em encontrá-lo como a causa do fracasso, mas com toda a certeza outros fatores foram mais determinantes.

Em 2008, a Capitol Hill Prayer Partners escreveu: “Embora tenham morrido como mártires há 444 anos (456 atualmente), o sacrifício dos franceses huguenotes na Flórida permanece na eternidade e o preço foi pago nos céus pela nossa liberdade nesse solo, aqui na terra. Louvado seja Deus… eles não amaram suas vidas até a morte (Ap 12:11)” (via CBN).

Consequências

As relações entre França e Espanha, antes tensas, apenas pioraram. A Espanha guardava ódio da coroa francesa desde os primeiros corsários como Jean François Roberval (1495-1560) e Jacques de Sores, o último invadindo Havana em 1555 e causando um grande terror. A França, agora, estava contra a Espanha por impedir um possível promissor assentamento no rico continente americano, porém a reação não foi tão grave de imediato. 

Naturalmente, os huguenotes foram os mais enfurecidos, enquanto os católicos ficaram divididos em apegar-se a defesa da nação ou o ódio aos protestantes. Catarina de Médici enviou uma carta de denúncia ao seu embaixador na Espanha, mas nada mais do que isso. Os mais revoltados foram as famílias dos falecidos que continuamente insistiram a coroa por restituição de bens e revanche contra os espanhóis. Uma petição das viúvas e órfãos dos que foram mortos no Fort Caroline foi direcionada ao rei Carlos IX e clama por socorro "com lágrimas nos olhos diante desse terrível espetáculo", esperando que o monarca os atenda e seja lembrado não apenas como rei, mas como pai de seu povo (GAFFAREL, 1875).

O crime dos espanhóis só será cobrado com Dominique de Gourgues (1530-1593), um católico que vingou o sangue deles como irmãos franceses, apesar da fé oposta.

Conclusão

A fundação de St. Agostinho tornou-a a primeira cidade oficial no território dos Estados Unidos, sendo a capital da Flórida Espanhola por 200 anos e tornando-se a capital da Flórida Leste dos britânicos. Considerando que ela foi fundada como resposta ao assentamento huguenote, eles foram diretamente responsáveis por um dos grandes marcos na colonização do continente norte-americano, assim como foram na América do Sul.

A oposição aos huguenotes é histórica, especialmente por historiadores como John Gilmary Shea que justifica a postura espanhola devido aos atos de pirataria descritos. Contudo, os colonos huguenotes não eram piratas e condenaram uma tentativa esporádica de pirataria que surgiu em Charlesfort, condenando a pena de morte os revoltosos. Em teoria, o terreno era dos espanhóis, mas eles mesmos eram invasores em terras de indígenas, matando muitos deles em todo o Novo Mundo. Os huguenotes não tem menos direito sobre a colônia do que puritanos em Massachusetts e católicos em Maryland. O Fort Caroline nunca teve intenção de embate contra os espanhóis.

"Esses homens vieram com intenção pacífica; eles vieram para fundar lares e desenvolver um assentamento, sendo evidente pelo fato que trouxeram mulheres e crianças com eles. (...) Menéndez, como cristão que professava ser, poderia ter encontrado outros meios de expulsar esses franceses" (DOWNEY, 1934, p.107)

Alguns propuseram que Menéndez consentiu com a morte dos franceses para evitar uma crise de fome mas o relato do padre deixa claro como o fato religioso foi determinante para o massacre perpetuado pelos hispânicos. Sem contar que eles não estavam em uma crise fome eminente, como os franceses tiveram em outras ocasiões. Não há justificativa para o massacre criminoso dos espanhóis contra franceses. Além de toda a disputa territorial e colonialista, havia duas fés conflitantes em encontro, uma dominante e outra perseguida, buscando por pacificação e liberdade de culto. Em todo o lugar que os protestantes franceses buscassem um local para se estabelecer, encontravam perseguição e restrição de direitos básicos, impedidos de florescerem socialmente.

O sangue desses huguenotes derramado sobre as terras americanas jamais será esquecido.

Graça e paz a todos vocês,
Luigi Bonvenuto.

FOTOS: 

Fort Caroline. John Ogilby, 1671, in America Being the Latest and Most Accurate Description of the New World, Arnold Montanus.

Massacre at Matanzas Inlet, Florida Memory. Public Domain




Florida, 1562, Woodbury Lowery, The Spanish Settlements within the Present Limits of the United States: Florida (New York, NY: G. P. Putnam's Son, 1911)

BIBLIOGRAFIA:

BRYANT, Calvin. "1565: The Massacre Of The Huguenots By The Spanish In Florida". Jean Ribault, 27 de ago. de 2020. Disponível em: https://jeanribault.org/1565-the-massacre-of-the-huguenots-by-the-spanish-in-florida/. Acesso em: 30 de ago. de 2021.

BUSECK, Craig von. "444 Years: The Massacre of the Huguenot Christians in America". CBN, 7 de jul. de 2008. Disponível em: .https://www1.cbn.com/ChurchWatch/archive/2008/07/02/444-years-the-huguenot-christians-in-américa. Acesso em: 30 de ago. de 2021

DOWNEY, Thomas Edward. "The Huguenot Settlements in Florida, 1562-1565". Tese de Mestrado - Loyola University Chicago. Chicago, 1934. 153.

GAFFAREL, Paul Louis Jacques. “Histoire de la Floride Française”. Paris, Firmin-Didot et Cte., 1875.

LOKER, Aleck. “La Florida: Spanish Exploration & Settlement of North America, 1500 to 1600”. Aleck Loker, p.199.

LONGUEVILLE, Olivia. "The religious tolerance in France and the Affair of the Placards of 1534". Olivia Longueville, 19. de out. de 2020. Disponível em: https://olivialongueville.com/2020/10/19/the-religious-tolerance-in-france-and-the-affair-of-the-placards-1534/. Acesso em: 30 de ago. de 2021.

LOPEZ, Francisco. THATCHER, Oliver J. “The Library of Original Sources, vol. 5”. 1900.

NORMAN, Charles. “Discoverers of america”. New York: T.Y. Crowell Company, p.148

SAUER, Carl Ortwin. "Sixteenth Century North America: The Land and the People as Seen by the Europeans". Oakland: University of California Press, 1975.

THE Massacre of the French. National Park Service, 8 de mai. de 2020. Disponível  em: https://www.nps.gov/foma/learn/historyculture/the_massacre.htm. Acesso em: 30 de ago. de 2021.

THE Spanish Massacre of America, 1565. Eyewitness, 2002. Disponível em: http://www.eyewitnesstohistory.com/spanishmassacre.htm. Acesso em: 30 de ago. de 2021.

CHARLESFORT: History of the French Settlement. The Charlesfort and Santa Elena Project. Disponível em: https://web.archive.org/web/20100615022447/http://www.cas.sc.edu/sciaa/staff/DePratterC/chas1.html. Acesso em: 30 de ago. de 2021.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Septuaginta, Vulgata, Torá, Tanakh, Talmude e outros: Os Antigos Escritos Bíblicos

Quando estudamos a história da teologia ou até mesmo nos aprofundamos no estudo dos livros da Bíblia dificilmente evitaremos termos como Torá e Septuaginta que apesar de bastante conhecidos, nem sempre os cristãos os entendem e são essenciais caso queiramos compreender por completo o significado original dos textos que lemos em nossas traduções. Por isso, explicarei brevemente o que significa cada um deles e alguns outros que são mais esquecidos, mas antes preciso conceituar três coisas importantes: Antigo Testamento - Os primeiros 39 livros da Bíblia, também chamados de Bíblia Hebraica Novo Testamento - Os 27 últimos livros da Bíblia, começando com os evangelhos. Bíblia - Conjunto de textos sagrados para os cristãos composta por 66 livros (Bíblia protestante). Tendo isso claro, podemos iniciar: Torá Vindo do hebraico תּוֹרָה ("tōrāh" para os sefarditas), significa "instrução" e é o conjunto que nós cristãos conhecemos como Pentateuco , ou seja, os 5

A História dos Huguenotes: Perseguição e Guerras Religiosas (Parte 1)

Ao decidir um nome para usar em meu site e em meu canal, queria um que representasse a minha fé e meus ideais e que não fosse igual aos que já existem. Quando percebi que os huguenotes têm muitas semelhanças com minha teologia e não eram muito conhecidos, escolhi imediatamente o nome "O Huguenote" como uma homenagem e uma identidade que decidi assumir, por mais que minha denominação seja presbiteriana.   Não poderia faltar a explicação de quem eles eram e de sua história e é isto que pretendo realizar nessas duas publicações: contar de forma geral a história dos huguenotes que me inspiraram a tratar do assunto que mais amo, teologia. Mudanças na Europa Ao estudar a história, percebemos que nenhuma ideia ou movimento surge de repente, há sempre um antecessor que o inspira ou provoca o seu surgimento. No caso dos huguenotes, sua história remonta desde os séculos XII e XIII quando dois movimentos entraram em evidência na França, os valdenses e os cátaros, também chamados albigen

O Massacre de São Bartolomeu segundo C. H. Spurgeon

O MASSACRE DE SÃO BARTOLOMEU C. H. Spurgeon Le Massacre de la Saint-Barthélemy, François Dubois, 1572-1584. Musée cantonal des beaux-arts de Lausanne. A infame atrocidade perpetrada na véspera de São Bartolomeu, 1572, pelos católicos romanos contra os inofensivos huguenotes ou protestantes da França não deixará de ser lembrada com mais intenso horror até o dia da restituição universal . A frieza dos procedimentos que instigaram tamanha carnificina e as paixões diabólicas que levaram os nobres e estadistas católicos a romperem os limites da humanidade ao liderar o massacre  tornam o evento sem paralelo na história dos enormes crimes. Assim, não há sombra de dúvida sobre quem eram os originadores do plano. Os católicos romanos conceberam o mais amargo ódio contra os huguenotes e estavam decididos de que a terra deveria ficar livre deles. Catarina de Médici, cuja inimizade furiosa contra o protestantismo fez dela um motor admirável no terrível desígnio, controlou seu filho, Carlos IX, suf