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APOSTASIA - É possível perder a salvação?


Esse é um assunto muito presente nas discussões teológicas, principalmente por envolver o velho conflito Armianismo x Calvinismo. Eu quero refletir, contudo, na compreensão histórica sobre apostasia. Como ela era vista na igreja? Qual a posição reformada sobre o assunto? O que as Escrituras nos testificam sobre o grande pecado de deixar a Cristo? É o que veremos.

Apostasia - Ato de abdicar de continuar a seguir, obedecer ou reconhecer uma fé religiosa (Merriam-Webster Dictionary).

Trabalhai vossa salvação

"De sorte que, meus amados, assim como sempre obedecestes, não só na minha presença, mas muito mais agora na minha ausência, assim também operai a vossa salvação com temor e tremor" (Fp 2:12). A mensagem do apóstolo parece clara: Temos o dever de operar nossa salvação, para que ela seja assim aperfeiçoada. Esse versículo é colocado ao lado de outros que indicam julgamento por obras (Rm 2:6; 2 Co 5:10), especialmente em 1 Pedro 1:17: "E, se invocais por Pai aquele que, sem acepção de pessoas, julga segundo a obra de cada um, andai em temor, durante o tempo da vossa peregrinação".

Se nós devemos agir segundo nossa salvação, deduz-se de que sua garantia está em nossas mãos e que é nosso dever perseverar na fé, afinal, "convém-nos atentar com mais diligência para as coisas que já temos ouvido, para que em tempo algum nos desviemos delas" (Hb 2:1). Aqueles que são incapazes de perseverar, tem a condenação garantida. "Porque é impossível que os que já uma vez foram iluminados, e provaram o dom celestial, e se fizeram participantes do Espírito Santo, E provaram a boa palavra de Deus, e as virtudes do século futuro, e recaíram, sejam outra vez renovados para arrependimento; pois assim, quanto a eles, de novo crucificam o Filho de Deus, e o expõem ao vitupério" (Hb 6:4-6)

Os cristãos, então, tem a obrigatoriedade de se esforçarem para preservar a dádiva do Senhor que lhes foi entregue. A mensagem geral dos cristãos do século II pode ser resumida em "Vigiemos, senão cairemos!". O estímulo ao jejum, a mortificação da carne, a oração constante, a leitura das Sagradas Escrituras, tudo parecia voltado para que o dom de nossa salvação não fosse perdido e não caíssemos no terrível pecado da apostasia. Como diz o bem-aventurado Policarpo de Esmirna (69-155):

"Pois todo aquele que permanecer nessas virtudes, este cumpriu os mandamentos da justiça. Pois quem permanece na caridade está longe de todo pecado" [1]

Contudo, isso não nos retorna ao Pacto das Obras? Estaremos confiando no que nós somos capazes de fazer. S. Paulo nos diz em sua epístola aos romanos que "Deus credita justiça independente das obras" (Rm 4:5) e que "ninguém é justificado pela prática da Lei, mas mediante a fé em Jesus Cristo" (Gl 2:16). Ainda que atribuamos a justiça inicial a Deus, estaria correto defender que a permanência de sua graça cabe ao nosso fazer?

O temor da apostasia

Antes que a pergunta seja respondida com clareza, é bom ressaltar a gravidade da apostasia e o temor que esta desperta. As Escrituras continuamente nos falam daqueles que abandonarão a fé nos últimos tempos e que "seguirão espíritos enganadores e doutrinas de demônios" (1 Tm 4:1). Nenhum dos cristãos queria ser como a semente a beira do caminho ou a semente sobre as rochas (Lc 8:12-13), detentores de fé temporária, por essa razão adotando a exortação do autor desconhecido "Cuidado, irmãos, para que nenhum de vocês tenha coração perverso e incrédulo, que se afaste do Deus vivo" (Hb 3:12). 

Quanto a esse último verso, Matthew Henry (1662-1714) diz: "O coração mau de incredulidade está no fundo de todas os nossos desvios de Deus; é um passo determinante para a apostasia; se nós permitirmos a nós mesmos perder a confiança no Senhor, em breve o desertaremos. Irmãos cristãos necessitam ser alertados contra a apostasia Deixem os que acreditam que conseguem se manter caírem" [2]

2 Pe 2:20-22 e Hb 6:4-6 tratam especificamente daqueles que experimentaram do caminho da verdade e até mesmo se tornaram "participantes do Espírito Santo" e vieram a cair, figurando dentre os textos mais latentes sobre apostasia. O propósito dos escritos era admoestar a todos os leitores a permanecerem em perseverança, afim de que não se tornem como seus irmãos caídos que encontram-se num estado ainda pior, sendo grande responsabilidade dos apóstolos sustentar a saúde da Igreja com constantes alertas e exemplos de uma boa vida.

É desnecessário citar a quantidade enorme de textos do AT onde o Senhor exige obediência e atenção para não se desviarem de seus caminhos (Dt 5:32-33; Sl 34:14; Pv 1:8; 3:7,11; Jr 3:14;  Os 4:16). Agostinho diz que "Onde quer que haja qualquer exigência nas advertências divinas para que por vontade faça algo ou deixe de fazer, há prova suficiente do livre-arbítrio" [3].

Existe inegavelmente uma grande responsabilidade incumbida a nós, filhos de Deus, em proceder segundo o padrão da justiça afim de que o que ouvimos permaneça em nós (1 Jo 2:24-25) 

Assim, é justa a advertência do grande Clemente Romano (30-99): "Amados, cuidai para que vossos benefícios tão numerosos não se transformem em condenação para nós, o que acontecerá se não formos dignos Dele e não realizarmos em concórdia o que é bom e agradável a Seus olhos" [4]

Tenhamos temor do que pode nos ocorrer, pois não atender as ordenanças do Senhor é tremenda transgressão que será de nós cobrada no Dia de Cristo.

Toda boa dádiva vem de Deus

Isso não significa que a nós está o dever de manter nossa salvação, simplesmente porque isto é impossível. Respondendo a pergunta do parágrafo anterior, somos completamente desviados, inaptos a qualquer bom procedimento (Ec 7:20), seres de lábios impuros (Is 6:5) que vivem em constante desvio. Atribuir a nós a responsabilidade nos manter na graça é simplesmente insano considerando nossa natureza intrinsicamente voltada contra Deus (Sl 14:1-3), incapaz de fugir da maldição de quebrar os mandamentos (Dt  27:26). A regeneração iniciada pelo Santo Espírito nos concede a capacidade lutar contra a carne (Gl 5:16-18), mas nunca ficaremos livres de cair completamente por estarmos sempre em um corpo até o dia da ressurreição.

Como conciliar ambas as realidades? Simples. Os que "caem da graça", na realidade, nunca receberam a verdadeira graça. Como nos diz o Apóstolo João, "Eles saíram do nosso meio, mas na realidade não eram dos nossos, pois, se fossem dos nossos, teriam permanecido conosco; o fato de terem saído mostra que nenhum deles era dos nossos" (1 Jo 2:19). Agostinho nos diz que isso explica o caso de dois homens pios, ambos batizados, ambos dentro da Igreja, onde um sai e outro permanece. Apenas o último era predestinado pela graça divina pois se o outro fosse, teria permanecido. [5] (Dom da persev. 21). Os que caem são misturados com os que perseveram para que esses últimos busquem as coisas do alto, atendendo as ordenanças de Deus.

É verdade que Agostinho admite uma graça real experimentada por estes que caem, o que se opõe a concepção reformada. Porém, ele nos traz ainda mais palavras interessantes sobre esse assunto quando diz que "no que concerne ao caminho da piedade e a verdadeira adoração de Deus, nós não somos suficientes a pensar qualquer coisa como de nós mesmos, mas nossa suficiência é de Deus[6] 

"Pois é Deus que trabalha em vocês tanto o querer quanto o fazer pela Sua boa vontade e seus passos são direcionados pelo Senhor, para que você escolha Seu caminho. Mas em sua próprio bom e reto caminho, aprenda cuidadosamente que é atribuído a predestinação da graça divina" [7] 

Cabe a Deus nos conceder o dom da perseverança e da continência aos que predestinou para a vida eterna (1 Pe 1:2) para que nós, não resistindo ao Espírito Santo (At 7:51), sejamos mantidos no Corpo de Cristo, estando Nele selados até o fim dos tempos (Ef 4:30). Aos eleitos, a obra da salvação há de se cumprir, pois Ele a completará (Fp 1:6)

Os reformados defendem que os regenerados pelo Espírito Santo receberam a garantia de sua herança (Ef 1:14) que lhes garante a continuidade da salvação. Quanto a isso, a Confissão de Fé de Guanabara (1558) afirma:

"O homem predestinado para a vida eterna, embora peque por fragilidade humana, todavia não pode cair em impenitência. A este propósito, São João diz que ele não vive pecando, porque a eleição permanece nele" [8]

A Confissão de Fé de Westminster (1643-46) nos diz "Por diversos modos, os crentes podem ter a sua segurança de salvação abalada, diminuída e interrompida (...) contudo, eles nunca ficam inteiramente privados daquela semente de Deus e da vida da fé [e das bênçãos] (...), para não caírem no desespero absoluto" [9]

O próprio Cristo nos concedeu essa garantia ao dizer que suas ovelhas o ouvem e o seguem, recebendo a vida eterna e jamais perecendo ou sendo arrancadas de sua mão (Jo 10:28). "Meu Pai, que as deu para mim, é maior do que todos; ninguém as pode arrancar da mão de meu Pai." (Jo 10:29)

Somos alertados quanto ao pecado e responsabilizados quanto a nossas obras, mas ao mesmo tempo somos exortados a atribuir a Deus nossa confiança e a não nos preocuparmos quanto a segurança de nossa salvação. A apostasia é uma realidade verdadeira aos que aparentam estar no corpo por desfrutarem da comum graça, recebendo privilégios da parte de Deus (1 Co 7:14) mas sem serem verdadeiramente renovados. Sobre esses, o autor de Hebreus diz, "Pois as boas novas foram pregadas também a nós, tanto quanto a eles; mas a mensagem que eles ouviram de nada lhes valeu, pois não foi acompanhada de fé por aqueles que a ouviram" (Hb 4:2) 

Ferguson analisou bem esse trecho com a seguinte frase, "Apesar de ricas experiências espirituais, um coração incrédulo e a rejeição de Cristo, crucificando-o em nós mesmos, são lamentavelmente possíveis". [10] Se não tivermos manifestos em nós os sinais da eleição, (Gl 5:22-24; Rm 8:5), podemos estar certos de que o risco da apostasia está muito mais perto de nós, clamando a Deus para que ele nos assegure de nossa salvação. Se de fato formos infiéis, verdadeiramente cairemos e não podemos agir quanto a isso.

Conclusão

Operemos em nós a salvação, atribuindo todo sustento e glória ao Pai Eterno que nos traz o conforto e segurança de nosso chamado. Lembremos sempre que a vitória é adquirida não por nós mesmos, mas por Aquele que nos amou [12] e que o Espírito nos testifica quando somos salvos (Rm 8:16-18). A apostasia acomete todo aquele que não permanece em seus caminhos, impedindo-o de receber a graça eterna, porém a todo o que demonstra sinais de fé verdadeira, deve se apegar na Santa Palavra para vencer seus pecados. 

Antes que digam que tal confiança na predestinação e providência de Deus incita o descuido e indiligência de espírito, mantenho a resposta do Catecismo de Heidelberg, que diz ser "impossível que aqueles que estão implantados em Cristo, por verdadeira fé, deixem de produzir frutos de gratidão (Mt 7:18; Jo 15:5)" [12] 

"Por esse motivo, confie em Deus, peça-lhe as dádivas que ainda não possui e permaneça firme na provação afim de receber a recompensa prometida" (Tg 1:12)

Graça e paz a todos vocês,
Luigi Bonvenuto

[1] Epístola de Policarpo aos Filipenses, 3
[3] Agostinho, Da graça e do livre-arbítrio, 2.4
[4] Clemente Romano, Carta aos Coríntios, 21.1
[5] Agostinho, Da predestinação dos santos, Livro II, 21
[6] ibid., 33
[7] ibid., 59
[8] Confissão de Fé de Guanabara, Art. X
[9] CFW, XVIII, IV.
[11] Agostinho, Da graça e do livre-arbítrio, 7.16
[12] CH, 64.


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