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A RESSURREIÇÃO COMO CONTEMPLAÇÃO DA MAJESTADE DIVINA

Nosso Senhor Jesus, desde o início de seu ministério, profetizava sobre sua morte e ressurreição. “Destruam este templo, e eu o levantarei em três dias” (Jo 2.19), disse ele após ser indagado pelos judeus quanto a uma prova de sua autoridade para purificar o santuário profanado por eles. Os discípulos presentes acharam ser o templo físico, mas o próprio Evangelista diz que “o templo do qual ele falava era o seu corpo” (v.21). Mesmo quando falou explicitamente (Mc 9.30-32), os discípulos não entenderam, vindo a crer apenas depois.

A ressurreição era um enorme mistério a judeus e gregos e até hoje permanece um enigma em nossa mente humana. O entendimento natural da vida nos leva a concluir que a morte é a sua linha definitiva, o encerramento de nossa trajetória, onde o suspirar se encerra e o corpo padece em decadência. A crença de que um corpo maltrapilho não se corrompeu após três dias sepultado e ressuscitou plenamente renovado é um absurdo a nossa razão, mas é por isso que o Cristo crucificado permanece um escândalo a todos nós (1 Co 1.23).

É necessário que a Sua ressurreição seja pregada junto de Sua crucificação. O Evangelho, o poder da salvação, inclui a confissão de Cristo como Senhor e a sua ressurreição dentre os mortos (Rm 10.9; 1 Co 15.3-4) pois foi por ela que Ele contemplou a obra da Redenção e provou ser o Filho de Deus que haveria de ressuscitar no dia de sua vinda todos os que Nele creram. Sem ressurreição, não há por que crermos em sua morte, e a sua mensagem é tão poderosa que independe das capacidades de quem a proclama.

João Calvino, em seu sermão sobre Mt 28.1-10, reflete sobre como Deus se adapta às nossas limitações para que o conheçamos em plenitude e possamos aprender as verdades celestiais. Os discípulos escolhidos e preparados por três anos pelo Mestre falharam quando foram colocados à prova e o Senhor mostrou sua culpa quando apontou mulheres para testemunharem a sua ressurreição e lhes comunicarem a maravilha das boas-novas. As mulheres eram reduzidas na sociedade, iletradas, submetidas às ordens de seus maridos e impossibilitadas de ensinar. Se os discípulos eram de pouca autoridade por causa de sua profissão, que dirá as mulheres que os acompanhavam? Mas foram elas as escolhidas para proclamar o mistério das eras, o grande milagre da ressurreição do Messias. Os discípulos, porém, não acreditaram nelas, pois “suas palavras lhes pareciam loucura” (Lc 24.11).

“Nós não precisamos dar crédito ao que dizem segundo a importância ou condição das pessoas, mas devemos elevar nossos olhos e sentidos ao alto para sujeitar-nos a Deus, que bem merece ter toda a superioridade sobre nós para que sejamos cativos sob Sua Palavra” 

Os guardas, ao se depararem com o anjo, tremeram e ficaram como mortos. Se antes Cristo foi humilhado e espancado pelos guardas romanos, a mera contemplação de sua majestade através do ser celeste foi suficiente para se aterrorizarem e ficarem paralisados, tamanho é o poder da revelação da grandeza do Senhor. “Quando Deus nos dá qualquer sinal de Sua presença, nós necessariamente devemos ser esmagados e saber qual é a nossa condição, isto é, que somos apenas poeira e cinzas e que todas as nossas virtudes são apenas fumaça que esvoaça e desaparece”, disse Calvino na mesma pregação. Isso ocorre a ímpios e fiéis, pois as mulheres também se encheram de temor diante da presença divina, um espanto esperado quando se depara com o sobrenatural, mas esse assombro foi convertido numa reverência sublime ao Senhor e submissão a Sua vontade, comunicada pelo anjo. O consolo do Senhor é encarnado nas palavras “Não temas”, para que este curto período de perplexidade diante de Sua majestade seja o primeiro passo na humildade que devemos possuir a fim de lhe dar o devido louvor.

“Nós devemos temer a Deus para render reverência perante Sua majestade, para obedecê-lo e ser completamente humilhados, para que Ele seja exaltado em Sua glória; manter toda boca calada, para que apenas Ele seja reconhecido justo, sábio e Todo-Poderoso” 

Aprendamos com elas a reverenciar a Deus em temor e tremor.

Ainda assim, esse espanto não deveria ocorrer se elas tivessem desde o início se lembrado das palavras de Cristo. Embora a intenção das moças em levar perfumes ao corpo de Jesus tenha sido legítima, elas estavam tão ocupadas com o zelo que se esquecerem do principal: Ele haveria de padecer para obter vitória sobre a morte e então ressurgir no terceiro dia. É por isso que o anjo as corrige, “Por que vocês estão procurando entre os mortos aquele que vive? Ele não está aqui! Ressuscitou!” (Lc 24.6). Só assim se recordaram do que o Mestre havia dito. 

“Deus nos poupa e não recusa o que viemos lhe oferecer, independente da fraqueza ou culpa que há, sabendo que tudo está purificado pela fé. É por sua abundante graça que Ele reconhece aquilo que não era digno de ser oferecido”. Em sua piedade, Ele aceita a nossa defeituosa rendição de louvor como aceitou as especiarias das mulheres e nos conduz a perfeição da sabedoria, para que nossa visão não esteja na terra mas no céu, para que olhemos ao alto e exultemos na esperança de que a Majestade virá em toda a sua glória, assim como ascendeu ao céu em sua plenitude magnificente. 

“Vejamos, então que, a fragrância do sepulcro e da ressurreição de nosso Senhor Jesus Cristo permeia até mesmo nós, para que pudéssemos tornar-nos vivos por ela. O que se segue então? Que nós não vamos mais olhar ao sepulcro como essas mulheres, por cuja ignorância e fraqueza somos servidos, mas elevemo-nos acima, visto que Ele nos chama e nos convida para lá, já que Ele nos mostrou caminho e declarou a nós que Ele adquiriu a possessão de Seu reinado celestial para nos preparar um lugar, quando pela fé haveremos de o encontrá-Lo” 

Quando nos dirigimos a Ele com fé, Deus se adapta a nossas limitações, mesmo com nosso louvor imperfeito e enorme temor de sua grandiosidade, para que nos aproximemos confiantes da esperança que nos traz vida. Elas se ajoelharam em devoção e Cristo as colocou para proclamarem a mensagem da ressurreição, visto que ela não teria valor nenhum se não fosse anunciada. A exigência de Jesus para que sua ascensão fosse dita a todos é explicada no discurso repleto de profundidade e sabedoria de Calvino: “Nosso Senhor Jesus desejou que fôssemos feitos certos de Sua ressurreição, porque nisso reside toda a esperança de nossa salvação e retidão, quando verdadeiramente sabemos que nosso Senhor Jesus ressuscitou. Ele não apenas nos furtou de toda nossa imundície por Sua morte e paixão, mas Ele não poderiam permanecer em tal estado de fraqueza. Ele tinha de mostrar o poder de Seu Santo Espírito e Ele tinha de ser declarado Filho de Deus pelo ressurgir dos mortos. É por isso que agora devemos estar certos que nosso Senhor Jesus, estando ressurreto, deseja que nós vamos até Ele e que a estrada seja aperta a nós e Ele não nos espera olhar para Ele, pois Ele providenciou que nós sejamos chamados pela pregação do Evangelho e que este a mensagem seja falada pelas bocas de Seus arautos que Ele escolheu e elegeu. Assim sendo, reconheçamos que hoje nós partilhamos da justiça que temos em nosso Senhor Jesus Cristo, para alcançar a glória celestial, visto que Ele não deseja ser separado de nós” 

Que a contemplação da majestade divina, a exultação do grande milagre, ainda que de forma imperfeita, e a grande submissão em temor e tremor diante do Cristo ressurreto nos conduza a plena certeza de que Ele está vivo e assentado a destra do Pai pois é Rei vitorioso sobre a morte, a Lei e o pecado, e que haveremos de ir aos céus junto com Ele no dia de Sua volta, preenchidos com a convicção derramada em nós por meio de seu Santo Espírito. 

Um bom domingo de páscoa.

Graça e paz a todos vocês,
Luigi Bonvenuto.

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