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Em defesa do Batismo Infantil

 
Apesar da diversidade de igrejas existentes hoje em dia, existem determinadas crenças que estão presentes em todas elas: A crença num Deus único, em Jesus como Salvador e Redentor, na sua vinda como Deus encarnado, na Trindade, na Bíblia como inerrante revelação divina, no Espírito Santo como parte do ser de Deus e que guia a igreja, além de outras, tendo como principais sacramentos o batismo e a Santa Ceia (ainda que a Igreja Católica possua sete deles)

Ainda assim, um assunto bastante controverso até hoje e que acompanha um ritual milenar dentre os cristãos, significativo e profundo para todos eles é com certeza o batismo. Para os novos crentes é a regeneração e para os filhos de crentes a confirmação ou o selo da graça, contudo, em que idade deve ser praticado? Bebês devem ser batizados ou apenas os que confessam a fé? Venho então defender a última crença e pretendo mostrar que ela é correta segundo as Escrituras, por mais que a minoria dos evangélicos a defende atualmente.

A Origem do Batismo

O batismo foi inicialmente praticado por João Batista nas águas do do deserto, pregando um ritual de arrependimento aos judeus (Mc 1:4). Realizando um ritual de purificação nas águas, comum aos judeus (Nm 19:9), ele promovia uma pregação apocalíptica, anunciando a vinda do Filho do homem e deixando claro que não era Elias, acentuando que seu batismo era diferente do realizado por aquele que viria. 

"Eu os batizo com água, mas ele os batizará com o Espírito Santo" Mc 1:8

O próprio Jesus foi batizado por João, perplexo por reconhecer que era ele quem deveria estar sendo batizado mas o Cristo permitiu que assim fosse para que a justiça fosse cumprida (Mt 3:14-15). O Espírito de Deus desceu neste momento, declarando Jesus como o Filho amado e mostrando a importância daquele momento. Se até o próprio Cristo foi batizado, por que não deveríamos ser?

Ele instruiu aos seus apóstolos que batizassem no nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo ao ordenar a grande comissão (Mt 28:19) e desde então o batismo foi adotado como ritual de iniciação na vida cristã, presente ao longo de toda a história.

O Que é o Batismo?

Penso que essa dúvida é muito respondida já no tópico anterior, mas existem outros aspectos do batismo que devemos lembrar. Ele não é apenas o lavar com as águas mas como disse João, o batismo com o Espírito Santo figura na Bíblia e foi recebido em momentos diferentes pelos primeiros cristãos (At 1:5). Paulo deixou claro que o primeiro batismo apontava para Jesus, sendo necessário receber também o Espírito (At 19:4).

O batismo ou o lavar com o Espírito Santo é realizado no momento de conversão do indivíduo, quando este é selado pelo Espírito Santo de Deus (Ef 1:13-1), agindo como garantia da herança que receberá no porvir. Somos todos batizados nesse mesmo Espírito e o ato do batismo nas águas marca a ingressão do crente na igreja visível de Cristo (1 Co 12:13).

Outras referências ao batismo o apontam como o revestimento de Cristo, marcando uma nova vida e que torna os batizados descendente de Abraão, ainda que sem a Lei (Gl 3:26-29). Considerando tudo isso, é correto o batismo de infantes, chamado pedobatismo?

A Aliança de Deus

Deus sempre se relacionou com o homem a partir de alianças, também chamadas pactos. Elas estão presentes ao longo das Escrituras com pessoas e momentos diversos:

  • A aliança com Adão o estabelecia como governador da criação e ordenava que não comesse do fruto proibido (Gn 1:28-30; 2:15-17)
  • A aliança com Noé prometia que nunca destruiria a terra daquela forma novamente e colocou no céu o arco-íris (Gn 6:18-22; 9:8-17)
  • A aliança com Moisés exigia que o povo reconhecesse a Ele como seu Senhor e cumprisse a Lei que lhes foi dada (Ex 19-24)

Outras foram feitas mas uma das principais foi a com Abraão, onde ele seria pai de um povo numeroso que abençoaria toda a terra (Gn 15 e 17). O sinal dessa aliança era a circuncisão, uma cirurgia feita no órgão masculino que os marcava o povo de Deus (Gn 17:9-14). Foi exigido a ele que cumprisse sua parte do pacto e fossem circuncidados ele e seus descendentes aos oito dias de idade, selo  que permaneceu por todo o período da Lei e foi definitivo para caracterizar o povo de Deus, diferenciá-los dos pagãos e torná-los nação única como verdadeiramente eram (Dt 7:6). 

O sinal, porém, não tornava ninguém santo pois todos os maus exemplos no povo de Israel eram circuncisos: Saul, Acabe, Jeroboão e todos os fariseus receberam o selo mas não foram transformados no coração (Lv 26:40-42).

Desde o começo a Lei apontava para a circuncisão como símbolo de justificação previamente aplicado e somente honrado de acordo com a conduta pessoal dos indivíduos. Em Deuteronômio temos a seguinte frase:  

"Sejam fiéis de coração, á sua aliança; e deixem de ser obstinados" (Dt 10:16)

Esse mandamento no hebraico está escrito como "circuncidem vossos corações" (Jr 4:4 também contém a expressão), ordenança retomada por Paulo que viria a dizer que só é judeu aquele que o é interiormente e não fisicamente (Rm 2:28-29) e deixou claro que a circuncisão foi o sinal de fé de Abraão, tornando-o pai dos crentes incircuncisos e dos circuncisos de bom coração (Rm 4:11-12). Isso é importante para compreendermos a eficácia do batismo mais a frente.

As crianças como parte dela

As crianças foram explicitamente inclusas na aliança com Deus, "Estabelecerei a minha aliança como aliança eterna entre mim e você e os seus futuros descendentes, para ser o seu Deus" (Gn 17:7) e não só neste texto como outro também deixam claro que as crianças sempre foram inclusas na aliança divina (Gn 9:9; Dt 4:37; Js 24:15; Sl 89:3-4). Elas sempre foram consideradas povo de Deus, estando presentes quando a aliança seria confirmada para aceitarem a Deus como seu tutor (Dt 29:9-12) e o Novo Testamento não viola isto, sendo a Igreja edificada sob Cristo a continuação de Israel e da aliança abraâmica, válida até hoje (Rm 4:16-17; Gl 3:8-9;14).

O ato da circuncisão não foi eliminado, mas tornou-se o ritual do batismo como Paulo esclarece em Cl 2:11-12, onde o ato do circuncidar é comparado ao batismo, o "circuncidar de Cristo". Existem apenas dois sacramentos na Nova Aliança, o batismo (vindo da circuncisão) e a Santa Ceia (vinda da Páscoa), tendo em vista novamente que Cristo não veio anular a Lei ou quebrar as alianças anteriormente firmadas (Mt 5:17-18; Hb 9:15)

Lembremos do fato de que se o batismo não devesse ser aplicado a crianças, com toda a certeza haveria uma advertências apostólica quanto a essa mudança. Um Concílio foi convocado para tratar da alimentação dos crentes e não seria discutido a exclusão das crianças se esta tivesse ocorrido? (At 15:1-19). A Nova Aliança não deve ser mais restritiva, pelo contrário, deve ser ainda mais abrangente do que a anterior e não há razão para excluir quem já estava presente nas ordenanças divinas.

Pelo contrário, o Novo Testamento ressalta ainda mais a presença das crianças como povo de Deus e integrantes da aliança. Cristo se opôs a censura dos discípulos e abriu os braços para receber as crianças (Mc 10:13-16), afirmando que elas louvam ao senhor quando gritaram no templo ao presenciar seus milagres, citando um salmo (Mt 21:1; Sl 8:2). A promessa de arrependimento pelo Espírito era para os crentes e seus filhos (At 2:38-39), tratados não como pequenos ímpios que devem ser convertidos mas como pessoas santificadas pela retidão de um dos pais ou de ambos (1 Co 7:14), tendo sua fé moldada e influenciada por eles (Pv 22:6; At 16:31).

Entretanto, isto não significa que elas serão salvas por tal rito, sendo ele apenas a iniciação e o comprometimento dos pais que ao "dedicar este infante pelo santo batismo através do serviço do Deus Trino, devem estar cientes de que o dever sagrado de treiná-lo, por preceito e exemplo, no verdadeiro conhecimento e temor de Deus, de acordo com os artigos da fé e doutrina cristã, contidos nos livros do Antigo e do Novo Testamento, e nos símbolos da Igreja Reformada" Liturgy: Order of Christian Worship - The German Reformed Church, p. 207.

Nós reformados não cremos na regeneração batismal, presente nas doutrinas católica, ortodoxa e luterana. Os bebês não são regenerados apenas pelo lavar das águas e muito menos lhes é retirado o pecado original por causa disto, pois o batismo salvador não é o das águas mas apenas a verdadeira fé em Cristo Jesus (1 Pe 3:21; Rm 5:1-2)

O batismo de infantes na Bíblia

Os credobatistas argumentam que não há nenhum exemplo de batismo infantil. De fato, explicitamente não temos nenhum exemplo de crianças batizadas mas não porque não era praticado e sim porque não há um único exemplo de batismo da próxima geração de crentes. As Escrituras tratam apenas de como os novos convertidos aceitaram a fé e não sobre como se sucedeu a sua descendência.

Algumas igrejas costumam batizar os filhos apenas quando atingem a chamada idade de consciência, onde recebem um treinamento da fé cristã e passam pelo processo do batismo. Muito elegante, mas isso não é bíblico. Pode ser tradicional mas não há nada na Bíblia que instrua dessa maneira, pelo contrário, as passagens apontam para um batismo de infantes quando os pais se convertiam.

Temos exemplos de casas inteiras batizadas (At 2:41; 8:12-13;38; 9:18; 10:48; 16:33) e é extremamente difícil não haver crianças numa casa do século I. As pessoas não tinham só um, mas muitos filhos, levando em consideração a alta mortandade infantil nos primeiros anos e a necessidade de descendentes para o sustento. Além disso, o termo casa traz a ideia de família, presente também nas palavras de Josué: "Eu e minha casa (família) serviremos ao senhor" (Js 24:15). Como já foi exposto, as crianças eram claramente inclusas no meio do povo e nas casas dos judeus, logo indica que a conversão dos pais impactava na aplicação do selo da graça sobre elas também.

Podem dizer que Mc 16:16 é uma prova do credobatismo, "quem crer e for batizado será salvo, mas quem não crer será condenado", contudo temos um grande problema: crianças não tem capacidade de crer por não possuírem o discernimento que nós temos. Se essa passagem se refere a crianças logo deduziríamos que elas não podem ser salvas e nós não cremos nisso. Esse trecho se refere aos ímpios que adotam a fé cristã que devem não apenas crer mas passar pelo ritual determinante para integrarem o Corpo de Cristo.

Outros podem argumentar que o batismo nos une com Cristo (Rm 6:4-5) e por isso deve ser aplicado apenas aos crentes. De fato, o batismo realmente nos une a Cristo (Gl 3:27) mas ele só tem poder se a fé santificador agir em nós. Nem todo batizado é filho de Deus assim como nem todo circuncidado era filho de Abraão (Rm 9.6-8). Posso receber da Santa Ceia e não ter um coração verdadeiramente humilde para tê-la ou pensar ter me convertido, ser batizado e abandonar a igreja dois anos depois. O risco de desviar da fé não é argumento contra o batismo infantil pois os símbolos da aliança só são efetivos em corações convertidos.

Por isso fiz questão de assinalar a transformação de coração no tópico "A Aliança de Deus" porque sem ela o símbolo da aliança não tem eficácia. A igreja visível não é composta de todos os eleitos do Senhor que herdarão a glória futura (Rm 8:29-30) pois sabemos que no fim dos tempos haverão os joios cortados dentre os trigos (Mt 13:24-30)

As crianças louvam ao senhor desde recém-nascidas (Lc 8:2) e o Senhor se revela a elas (Lc 10:47). Elas sempre foram inclusas no pacto de Deus conosco e assim como foram batizadas na travessia do Mar Vermelho (1 Co 10:2), elas foram batizadas no passado e assim continuarão a ser.

Conclusão

Penso ter esclarecido o suficiente quanto ao batismo. Confira também o que os Pais da igreja pensavam sobre batismo infantil, mostrando o batismo infantil é correto na cristandade tanto biblica quanto tradicionalmente 

Encerro com uma citação da Confissão Belga (1561):

"Pelo Batismo, somos recebidos na igreja de Deus e separados de todos os outros povos e religiões para pertencermos totalmente a ele, tendo sua marca e estandarte. O Batismo nos serve para testemunhar que ele será eternamente nosso Deus e misericordioso Pai (...)

Cremos, porém, que estes [infantes] devem ser batizados e selados com o sinal da laiança, assim como as crianças em Israel eram circuncidadas com base nas mesmas promessas que foram feitas para nossos filhos. Cristo, de fato, derramou seu sangue para lavar igualmente os fiéis e seus filhos" CB 34 

Graça e paz a todos vocês,

Luigi Bonvenuto

Fontes:

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