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Ícones da Igreja - Irineu de Lyon (130-202 d.C)

 

 


Estudar a História da Igreja é fascinante. Você começa observando a origem de sua denominação, retorna aos fundamentos da doutrina em que acredita e se direciona ao passado até que se encontra nos primórdios da igreja, período conhecido como Igreja Primitiva. Confesso que estudar os Pais da Igreja mudou meu cristianismo e por que não minha visão de mundo, observando como ideias e pensamentos atuais possuem raízes muito mais antigas do que podemos imaginar e me tornando mais hábil a responder perguntas presentes até hoje.

Decidi realizar uma série de publicações onde contarei a história de grandes personalidades do cristianismo, selecionando os nomes de acordo com a necessidade e com o conhecimento que tenho sobre eles. Todas as fontes estarão no final na publicação ou colocadas ao lado das citações, como sempre faço. 

O primeiro a ser escolhido foi Irineu de Lyon, bastante conhecido no meio teológico mas pouco comentado fora dele. Será que seus escritos mudaram a Igreja de alguma forma? É o que pretendo mostrar.

Nascimento e formação

Irineu de Lyon nasceu em Esmirna, na região da Ásia Menor, no ano de 130. Foi instruído pelo bispo da cidade, Policarpo, que por sua vez foi discípulo do apóstolo João, falecido em torno de 100 d.C, indicando uma viva tradição apostólica em seus ensinos e pensamento. Ainda que seu mestre tenha morrido durante sua juventude, afirma ter vívidas lembranças de Policarpo, guardando registros sobre este a quem conhecemos muito pouco.
 
Por motivos pessoais e missionários, acabou por ir a Lyon, no sul da Gália, atual França, sendo escolhido para atuar como presbítero na igreja local. A cidade era o centro das províncias que ocupavam a região francesa e um importante centro comercial às margens do rio Ródano. Tornou-se centro de uma grande comunidade cristã falante do grego mas também abrigava seitas e cultos pagãos, repreendidos pelos cristãos que ali habitavam.

Foi enviado a Roma em 175 pelo bispo Potino para cuidar da heresia do montanismo que abalava a Igreja e o sucedeu como bispo de Lyon após seu martírio junto com outras centenas de cristãos em 177 pela perseguição causada pelo imperador Marco Aurélio. Exerceu o cargo por 25 anos e sua atuação no pastorado foi admirável,  defendendo sua igreja firmemente e pregando sempre a paz e a unidade, principalmente quando o bispo de Roma, Vitor I (189-199), definiu a data da Páscoa e ameaçou excomunhão aos bispos da Ásia Menor por contrariar a decisão, sendo chamado de pacificador pelo historiador Eusébio de Cesaréia (História Eclesiástica, 5,24,18).

Combate ao gnosticismo

Em sua missão a Roma, onde ficou conhecido como diplomático e mediador, encontrou um ex-cristão que se converteu ao gnosticismo de um homem chamado Valentino e pior: Havia sido discípulo de seu mesmo mestre, Policarpo.

O choque se intensificou ao ver a popularidade do gnosticismo na Gália e tornou a combatê-lo fortemente. O gnosticismo é um pensamento muito complexo e cheio de ramificações para ser explicado tão brevemente, mas é categorizado como a "a primeira, e mais perigosa, heresia entre os cristãos primitivos" (Giovanni Filoramo, A history of gnosticism). Consistia num sincretismo entre cristianismo, filosofia grega, especialmente neo-platônica, e mística oriental, possuindo ideias que demonizavam a matéria e tiravam Cristo como Deus encarnado, considerando-o um homem comum que recebeu o espírito angelical do Cristo para trazer o verdadeiro conhecimento (gnosis) responsável pela evolução espiritual.

O gnosticismo não era um pensamento único e se dividia em várias seitas, sempre tendo um líder carismático que a caracterizasse como o montanismo (liderado por Montano), o maniqueísmo (liderado por Manes) e no caso da seita que Irineu combatia, o valentinianismo (Valentino). Todos pregavam uma dualidade entre o mundo material e o espiritual, considerando os corpos prisões das almas portadoras de resquícios do divino e incitando o ascetismo e a morte da carne através de jejuns e penitências, levando sempre a Sophia, a expressão da realidade superior e que incorpora o divino num ser não divino, levado a uma consequente aproximação do Altíssimo ainda que exista um abismo entre nosso mundo e o Dele.

Essa distorção do cristianismo verdadeiro assustou a Irineu a tal ponto que o levou a dedicar-se quase que completamente para combatê-lo. Com razão, ele considerou as doutrinas gnósticas um desvio do cristianismo verdadeiro e grandes ameaças para a ortodoxia, a doutrina verdadeira da Igreja. Em sua principal obra Contra as heresias mostra o quão ridículo e infundada é a doutrina gnóstica, usando de anos de estudo dos gnósticos para mostrar que seus seres cósmicos e entidades imaginadas são puramente fantasias. 
 
Usa de nomes zombeteiros para mostrar que a existência de seres como Zoe, Antropos e Eclésia, originários de Pater e Aletéia, por sua vez enraizados na Díada fundamental, um ser de duplo aspecto, era tão tosco quanto imaginar uma Abóbora unida a um Proarqué incompreensível que juntos possuem um poder, Vazio Total, o qual originou a mais deliciosa fruta, Pepino, havendo um poder semelhante, Melão, poderes estes que produziram a multidão de melões existentes. Era simplesmente loucura!

A simples razão seria capaz de contestar os gnósticos, os quais atribuíam a Deus um poder supremo mas o tornavam isento de culpa sobre o mundo material, sendo este fundado pela entidade maligna intermediária de Deus (o Demiurgo). A lógica básica presente na filosofia mostraria que é inconsistente um Deus com autoridade não ser responsável pela Criação, chamada de Caos pelos gnósticos.

A base das Escrituras e da Tradição

Não só de argumentos filosóficos consistia sua argumentação, mas também exegéticos e teológicos.
Deus é Uno, Trino, não-criado e criador a partir do nada (Contra as heresias, 2,1,1; 2,9,1; 2,16,3) e nisso consiste a concepção de Deus baseada nos apóstolos e na base escriturística da Igreja, os textos judeus e as cartas do Novo Testamento, apontando a uma continuidade (Contra as heresias, 4,20,7 – 25,3). Lembrando que o cânone ainda não estava plenamente definido mas as cartas paulinas e os evangelhos já compunham posição de importância na Igreja, considerados como Escrituras por muitos mestres inclusive por ele.

A partir de Irineu temos uma confirmação da importância da tradição apostólica para guardar a verdadeira doutrina, sendo importante defensor desta junto com Papias de Hierápolis (70-163 d.C). Não só isso, Irineu defende as Escrituras como único padrão final da veracidade cristã, fundamentando uma valorização crescente da Bíblia que temos hoje. Os gnósticos desprezava todo o Antigo Testamento e selecionavam os textos como bem queriam porque se diziam detentores de uma "verdade oculta", transmitida oralmente aos Apóstolos. Irineu demonstra como alegações de ocultismo e mensagens divinas não podem contradizer os fundamentos da fé transmitidos pelos presbíteros ordenados por sucessão apostólica e que Cristo ia veementemente contra suas doutrinas, afirmando um Deus que eles não criam.

Fundamento da Grande Igreja

O século II foi um período conturbado pois as várias seitas tornavam o cristianismo dividido e confuso aos novos crentes, constantemente caindo em filosofias que na realidade eram pagãs. Irineu não só auxilia a dar a base das Escrituras mas desenvolve pensamentos essencialmente cristãos como o da Santíssima Trindade e a igualdade do Pai com o Filho (Contra as Heresias 4,20,4), controvérsia retomada por Ário anos depois.

Defendeu que se Deus era racional, tinha para isso sua Sabedoria (O Logos ou como nós chamamos, "Verbo" em Jo 1:1-18) e se ao mesmo tempo era espiritual, assim se expressava pelo Espírito Santo. Ambos estavam fundamentados no Pai mas eram iguais em glória como era confessado na fórmula batismal. Essa igualdade entre as pessoas foi essencial para o desenvolvimento da Trindade.
 
Irineu teve outras doutrinas da Igreja como no batismo infantil e na escatologia (fim dos tempos) mas o seu segundo maior marco depois da defesa contra o gnosticismo é no âmbito da soteriologia (salvação)

Teoria da Recapitulação

Em seguida usa das Escrituras e da Tradição para contestar as doutrinas gnósticas e formula uma outra doutrina da salvação, conhecida como teoria da recapitulação. Junto com sua outra obra Demonstração da pregação apostólica, mostra que a salvação trazida por Cristo consistia não só num conhecimento elevado mas na sua própria encarnação como homem (encarnação salvífica), redimindo a natureza que assumiu e se tornando o novo cabeça. A redenção nada mais era do que a restauração da criação original e não a evasão dela.

Era necessário que Cristo fosse plenamente humano e divino para estender a salvação aos homens e assim se tornar a origem deu uma nova existência, o Cabeça da humanidade constituída sob seus pés (1 Co 15 e Rm 5:12-21). Isso ia diretamente contra a doutrina gnóstica que pregava uma demonização da matéria enquanto Ireneu defendia a salvação através da divinização da natureza humana (2 P 1:4), um conceito confuso mas que era comum entre os Pais da Igreja. 
 
Diferente do individualismo da fé protestante, a divinização pregava que a partir do sofrimento de Cristo e de sua semelhança conosco a carne foi parcialmente redimida e o ser humano pode se tornar mais próximo da essência de um Deus Supremo pelo fato do mesmo ter assumido nossos atributos fracos. É como uma troca: Deus assume a morte e carrega o pecado enquanto nós nos achegamos a vida e a pureza. Em suas próprias palavras:

para o homem ser salvo, é preciso que o primeiro homem, Adão, seja trazido de volta á vida (...) Deus, que tem vida, precisa permitir que sua vida entre em "Adão", o homem que realmente sente fome e sede, come e bebe, fica cansado e precisa de repouse, que conhece a ansiedade, a tristeza e a alegria, e que sente dor quando é confrontado com o fato da morte. [1]
A participação do sofrimento na salvação foi o veredito de morte a teologia gnóstica e a vitória definitiva do cristianismo ortodoxo.
 

Morte e Conclusão

Sua morte é de causa desconhecida mas acredita-se que morreu no ano 202, reconhecido como um mártir e sendo sepultado na Igreja de São João em Lyon, batizada com seu nome anos depois. Seus restos mortais e sua tumba foram destruídos pelos huguenotes em 1562 e é uma tristeza escrever sobre ele carregando o nome "O Huguenote". Ainda que os motivos de sua destruição tenham sido justificáveis perante a extrema veneração e o culto aos mortos que era praticado pelos católicos romanos, ao fazê-la os calvinistas apagaram uma parte importante da História da Igreja que deveria ser preservada.
 
É difícil imaginar o que teria sido o cristianismo se defensores da fé não tivessem surgido para impedir o crescimento da heresia gnóstica. Apesar de tais pensamentos ainda habitarem em seitas e grupos que e dizem cristãos, deixando traços no espiritismo e nas igrejas místicas por aí, a ortodoxia se tornou normativa e hoje permanecemos crendo em Cristo como um ser humano real em quem o próprio Deus habitou.

Não devemos cultuar a Irineu ou pensar que ele está nos céus para interceder por nós, mas sim lembrar de sua história e agradecer ao Senhor por enviar homens corajosos que lutaram para preservar a verdade doutrinária perante ameaças demoníacas.
 
Graça e paz a todos vocês,
Luigi Bonvenuto
 
REFERÊNCIAS:
[1] Gustaf Wingren, Man and the incarnation: A study in the biblical tehology of Irenaeus, trad. Ross Mackenzie, Philadelphia, Muhlenberg, 1959, p.95-96)
 
FONTES:
https://cpaj.mackenzie.br/historia-da-igreja/igreja-antiga-e-medieval/a-divina-triade-irineu-de-liao-e-a-doutrina-de-deus/
 
http://www.arquisp.org.br/liturgia/santo-do-dia/santo-irineu-de-lyon 
 
OLSON, Roger E.. Historia da Teologia Cristã: 2000 anos de tradição e reformas. São Paulo: Editora Vida, 2001.
 
FERREIRA, Januário Torgal. O significado do gnosticismo: uma tentativa de interpretação filosófica. Revista da Faculdade de Letras: Filosofia, 2, 1973, p. 251, 1973.
 
LIÃO, Irineu de. Adversus haereses, I, II, IV. 202.
 
 


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