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O Martírio de S. Policarpo - ENTRE A MORTE E A GLÓRIA



A Igreja sempre contou com grandes mártires em sua história, verdadeiros heróis do cristianismo que entregaram suas vidas por causa de sua fé. Esses homens de fato imitaram a Cristo não apenas em vida, mas também em morte e foram reais testemunhas do Filho de Deus, como a própria palavra mártir (μάρτυς) significa em grego.

Eles testificaram a Vida (1 Jo 1:2), como diz o apóstolo João, e voluntariamente se entregaram por Aquele que é a Verdade. Com a intenção de honrar suas histórias, desejo realizar uma série de publicações chamada "Entre a Morte e a Glória", semelhante a "Ícones da Igreja" que eu publiquei ano passado

O primeiro desses mártires será Policarpo de Esmirna (68-155), um dos bispos mais amorosos e mais marcantes do princípio da Igreja

Princípio de sua vida

Policarpo nasceu no ano 69 numa família cristã da alta burguesia em Esmirna. Segundo cristãos das décadas seguintes, foi discípulo do Apóstolo João, ordenado diretamente bispo de Esmirna por ele como conta Jerônimo [1] e há a possibilidade de ter conhecido outros apóstolos, ainda que bem jovem.

Foi muito próximo de Papias de Hierápolis (c.70-163), ouvinte direto de João, e de Inácio de Antioquia (c. 35 - 107), outro discípulo de João que esteve em sua casa no ano 107, pouco antes de morrer em Roma, redigindo cartas a outras igrejas como forma de encorajamento. A conhecida Epístola aos Magnésios, uma das principais de Inácio, proveio desta ocasião [2].

Esse grande irmão em Cristo lhe escreveu uma carta em Trôade, recomendando-lhe que justificasse a dignidade de seu cargo e agisse com todo o vigor físico e espiritual, acolhendo a comunidade e atendendo a toda a necessidade. Portando-se como verdadeiro atleta de Deus, é seu propósito exortar sua comunidade e os conduzir à salvação [3].

Que o vosso batismo seja como escudo, a fé como elmo, o amor como lança, a perseverança como armadura. [4]

Mesmo que Policarpo fosse um jovem bispo na época, Inácio ressalta suas virtudes, grato a Deus por ser digno de ver seu rosto irrepreensível. Desde o início de sua formação, o justo Policarpo guiava-se retamente segundo os preceitos cristãos, honrando a Deus e ajuntando para si os bens incorruptíveis.

Instrução episcopal

Enquanto Inácio deixou muitas epístolas, apenas um escrito de Policarpo sobreviveu, a Epístola aos Filipenses, escrita em torno do ano 135. Nela Policarpo se concentra na vida diária dos crentes e em como viver corretamente, preocupação essencial para um ministro do Senhor. Instrui a paciência e a caridade para se afastarem dos pecados, pois “todo aquele que permanecer nessas virtudes, este cumpriu os mandamentos da justiça. Pois quem permanece na caridade está longe de todo pecado” [5]

O jejum e a oração constantes são recomendados para que as heresias e tentações não dominem sobre os crentes [6], tornando-se de fato como Inácio recomendou em sua carta: uma bigorna resistente sob os golpes de martelo dos hereges. [7]

Nesta época, muitos negavam que Jesus tivesse realmente vindo em carne, afirmando que seu corpo era apenas uma aparência. Sendo totalmente divino, Cristo não possuía um corpo humano e o que as pessoas viam era algo semelhante a um fantasma. A essa heresia, deu-se o nome docetismo. Tal como o Apóstolo João, Policarpo não teme chamá-los anticristo (2 Jo 1:7), acusando-os de primogênitos de Satanás e inclusive dizendo diretamente a um deles, Marcião [8] O melhor remédio contra tais perversos é a piedade e a devoção, perseverando nossa esperança nas primícias da justiça, Nosso Senhor Jesus Cristo. [9] 

Um belo trecho de sua carta está no primeiro capítulo. Enquanto dizia sobre a fé dos filipenses no Cristo ressurreto, ele afirma:
'No qual embora não O vejam, acreditem, e acreditando, regozijem-se em inexprimível alegria e cheios de glória'; onde todos os homens desejam entrar, sabendo que 'pela graça vocês serão salvos, não pelas obras', mas pela vontade de Deus através de Jesus Cristo [10]
Lamenta a hipocrisia de um dos presbíteros desviados e age corretamente, oferecendo o perdão e demonstrando como a conduta dos ministros de Deus impactam na comunidade [11].  Exorta quanto a castidade, a pureza, ao conhecimento das Sagradas Escrituras, ao amor ao próximo e a mansidão [12], agindo como mensageiro do Senhor e encerrando desejando:
Que o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, e Ele mesmo, que é o Filho de Deus, e nosso eterno Pontífice edifique-os na fé e na verdade, e em toda mansidão, gentileza, paciência, magnanimidade, tolerância e pureza; e Ele lhes dê parte de sua herança entre os santos, e a nós convosco, e a todos os que estão debaixo do céu, que creem em nosso Senhor Jesus Cristo, e em Seu Pai, que 'O ressuscitou dentre os mortos' [13]
Nisto percebemos que a fé de Policarpo era inabalável, sustentando a guarda de toda a verdade e mostrando-se um verdadeiro eleito do Senhor perante a Igreja e o mundo. Em um período em que os Apóstolos já haviam falecido, muitas ameaças vieram sobre a Igreja e os sucessores escolhidos por eles tinham essa enorme vocação de preservar a ortodoxia, a doutrina verdadeira. Ele cumpriu seu papel com perfeição, motivo de orgulho ao seu Mestre caso ainda vivesse no período em que endereçou suas cartas.

Foi essencial para reforçar o caráter de Paulo como defensor do real cristianismo, enquanto seus escritos estavam sendo usados por seitas e pensamentos fora das Escrituras, e testificou a veracidade de muitos escritos do Novo Testamento.

Em sua carta, Policarpo lembra da morte do abençoado Inácio como exemplo de justiça que não se prendeu ao presente, mas visou as promessas eternas [14].  Anos após, tornaria-se como seu saudoso irmão em Cristo.

Glorioso martírio

Um texto chamado O Martírio de Policarpo foi escrito anonimamente em algum momento pouco depois de sua morte, ocorrida em torno do ano 155. Viria a ser transcrito por Eusébio de Cesaréia no século IV [15], com fragmentos citados por outros autores como o já citado Irineu de Lião. É o primeiro registro cristão fora dos escritos do Novo Testamento sobre um mártir da fé, sendo baseado no relato de testemunhas oculares e os detalhes presentes nos mostram a virtuosidade de Policarpo, ainda que em seus últimos momentos de vida.

Durante a perseguição imposta pelo imperador Marco Aurélio (161-180), a quarta após Nero, outros cristãos morreram antes dele e ao saber que iriam buscá-lo para o anfiteatro, não se perturbou. Devido ao apelo de outros, foi para longe da cidade, ficando numa propriedade rural orando dia e noite por todas as igrejas no mundo antes que partisse. Ali teve uma visão profética onde seu travesseiro pegou fogo e entendeu que morreria queimado vivo.

Partiu para outra propriedade, mais por amor aos outros do que a própria vida, porém teve sua localização delatada por um escravo torturado que lhe entregou. "Era, de fato ,impossível permanecer escondido, pois até mesmo os de sua casa o traíram" [16].

Perseguiam-no como se perseguissem um bandido e por fim o encontraram isolado num quartinho do andar superior. Poderia ter fugido, mas corajoso como era, simplesmente aceitou que fosse feita a vontade de Deus, entregando-se de boa vontade. Policarpo recebeu seus perseguidores como visitas, deu comida e bebida e os encantou com sua idade avançada e mansidão. Pediu que lhe concedessem uma hora para orar e assim lhe atenderam. Levantou-se e começou a orar "repleto da graça de Deus" [17] e diz o relato que os soldados, encantados com sua oração, arrependeram-se de virem prender um homem tão velho e tão santo.

Assim que terminou a oração, foi com eles, lembrando-se de toda a Igreja Católica (katholikos, "universal") e de todos os seus irmãos. Herodes, o chefe do grupo de polícia, intimou-o dizendo “Ora, que mal há em dizer, ‘César é o Senhor’, e oferecer-lhe incenso?” [18]. Policarpo se negou e isso o enfureceu tanto que o expulsou com violência, machucando sua perna. Ele entretanto seguiu como se nada tivesse acontecido, entrando alegre no estádio eufórico.

Ao adentrar ouviu uma voz dos céus que dizia “Seja forte, seja homem”, escutada também por outros presentes. De fato, era o Senhor encorajando-o seguir em frente em seu martírio, fortalecendo-o para o cálice que teria de suportar. 

Diante do procônsul, mais uma vez foi persuadido a jurar pela fortuna de César e bradar “Abaixo aos ateus”. Obedeceu apenas a segunda ordem, carregando um olhar soturno diante da multidão que o detestava e o vaiava. Herodes insistiu para que amaldiçoasse a Cristo para que fosse liberto e sua resposta ecoa a nós até hoje:
Eu tenho servido a Cristo por 86 anos e ele nunca me fez nada de mal. Como posso blasfemar contra meu Redentor? Ouça bem claro: eu sou cristão. Se quiser aprender sobre o cristianismo, me escute um dia [19]
O procônsul o incitou a convencer o povo, contudo Policarpo disse que ele era digno de explicação por aprenderem a respeitar as autoridades estabelecidas por Deus, mas não o público, pois não os considera dignos para ter que se defender.

Tentaram lhe assustar com as feras e ele respondeu “Pode chamá-las. Para nós, é impossível mudar de ideia, a fim de passar do melhor para o pior; mas é bom mudar, para passar do mal à justiça.” [20] Tentaram lhe assustar com fogo, mas respondeu “Me ameaça com fogo passageiro porque ignora o fogo eterno do julgamento reservado aos ímpios” [21]

Diz o registro que seu rosto estava repleto de graça enquanto respondia aos questionamentos das autoridades, mantendo alegria e serenidade. O arauto proclamou a todos que Policarpo se declarou cristãos e houve cacofonia da multidão de pagãos e judeus que berravam contra ele por ser o destruidor dos deuses e pai dos cristãos [22].Queriam leões, porém como o combate com as feras já havia se encerrado foi sentenciado a ser queimado vivo, cumprindo a visão que teve.

Ele mesmo se preparou para a execução, tirando suas roupas enquanto colocavam-no sobre o material inflamável. Era a primeira vez que se despia sem que um dos fiéis corresse para tocar primeiro, visto tamanha veneração que tinham pela sua santidade, semelhante ao que ocorria com Paulo (At 19:12)
Queriam pregá-lo para não fugir e ele simplesmente respondeu “Deixem assim. Aquele que me fortalece perante o fogo, me dá força para permanecer imóvel na fogueira”. [23]

Amarrado como um animal, o relato diz que parecia um “cordeiro escolhido para o sacrifício, holocausto agradável para Deus” [24]. Levantando os olhos aos céus, realizou sua última oração:
Senhor, Deus Todo-Poderoso, Pai do teu Filho amado e bendito, Jesus Cristo, Deus dos anjos, dos poderes da criação e de toda a geração de justos.

Eu te bendigo por me teres julgado digno deste dia e hora, de tomar parte entre os mártires, e do cálice de teu Cristo, para a ressurreição da vida eterna da alma e do corpo na incorruptibilidade do Espírito Santo. Com eles, possa eu hoje ser admitido à tua presença como sacrifício agradável preparado de antemão.

Por isso e por todas as outras coisas, eu te louvo, bendigo e glorifico pelo eterno e celestial sacerdote Jesus Cristo, teu Filho amado, pelo qual seja dada a glória a ti, como ele o Espírito, agora e pelos séculos futuros [25]
Assim que proferiu o Amém, o fogo foi posto e as chamas cresceram. "Grande chama brilhou e nós vimos o prodígio, nós a quem foi dado ver e que fomos preservados para anunciar estes acontecimentos a outros" [26]. As chamas, entretanto, não o consumiam. Policarpo era não como carne queimada, mas "ouro que brilhava na fornalha", exalando um perfume de incenso. 

O carrasco então pegou seu punhal e o esfaqueou até a morte, jorrando tanto sangue que apagou o fogo. Todos ficaram assustados com a diferença da morte de um incrédulo para a morte de um justo, vendo claramente o agir sobrenatural em sua vida. O abençoado bispo Policarpo por fim morreu aos 86 anos de idade, elevando sua alma aos céus e repetindo os passos do próprio Cristo.

O "adversário da geração dos justos", que pode ser Herodes ou o procônsul, vendo o testemunho irrepreensível de sua vida, queria impedi-los de levar o corpo ainda que muitos o desejassem. Ele sugeriu que procurassem o magistrado porque não queria que "abandonando o crucificado, passem a cultuar esse aí" [27].

Ignoravam entretanto a fidelidade dos cristãos que jamais abandonariam a Cristo, Aquele que "sofreu pela salvação de todos aqueles que são salvos no mundo" [28]. Ele é adorado por ser o Filho de Deus enquanto os mártires "nós os amamos justamente como discípulos e imitadores do Senhor, por causa da incomparável devoção que tinham para com o rei e mestre" [29].

O relato termina dizendo que outros morreram, mas Policarpo era o mais falado por ser não apenas “mestre célebre, mas também mártir eminente, cujo martírio segundo o Evangelho de Cristo todos desejam imitar” [30]. Ele foi cingido com a coroa da incorruptibilidade, triunfou sobre o iníquo magistrado, glorificando a Deus Pai-Todo Poderoso e bendizendo o Nosso Senhor Jesus Cristo juntamente com os apóstolos e todos os justos [31].

Segundo Irineu, morreu com glorioso e esplêndido martírio, sempre ensinando o que aprendeu dos apóstolos, transmitido também pela Igreja, a única a verdade [32]

Em todos os passos, Policarpo buscou ser como nosso grande mestre Jesus Cristo. Viveu e morreu por causa da verdade e nos inspira a nunca nos abalamos pelas ofensas das autoridades, mantendo a sobriedade e a devoção nas mais extremas condições. Deus seja louvado pelo testemunho dos bem-aventurados mártires de nossa fé, almas santas que aguardam o julgamento do fim dos tempos (Ap 7:9-12).

Nas publicações que virão, estudaremos mais irmãos que se sacrificarem por sua crença, unindo-se ao coro de Policarpo.

“Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus” (Mt 5:10)

Fiquem com Deus e até a próxima.

Referências:
[1] De Viris Illustribus, 17
[2] Epístola aos Magnésios, 15
[3] Carta a Policarpo, 1, 2, 4, 6
[4] Carta a Policarpo, 6 
[5] Epístola aos Filipenses, 3
[6] Epístola aos Filipenses, 7
[7] Carta a Policarpo, 3
[8] Contra as Heresias, III, 3,4
[9] Epístola aos Filipenses, 8
[10] Epístola aos Filipenses, 1
[11] Epístola aos Filipenses, 11
[12] Epístola aos Filipenses, 4, 10, 12
[13] Epístola aos Filipenses, 12
[14] Epístola aos Filipenses, 9
[15] História Eclesiástica, IV, 14,15
[16] Mart. de S. Policarpo, 6
[17] Mart. de S. Policarpo, 7:3
[18] Mart. de S. Policarpo, 8:2
[19] Mart. de S. Policarpo, 9:3, 10:1
[20] Mart. de S. Policarpo, 11:1
[21] Mart. de S. Policarpo, 11:2
[22] Mart. de S. Policarpo, 12:1-2
[23] Mart. de S. Policarpo, 13:3
[24] Mart. de S. Policarpo, 14:1
[25] Mart. de S. Policarpo, 14:1-2
[26] Mart. de S. Policarpo, 15:1
[27] Mart. de S. Policarpo, 17:2
[28] Mart. de S. Policarpo, 17:2
[29] Mart. de S. Policarpo, 17:3
[30] Mart. de S. Policarpo, 19:1
[31] Mart. de S. Policarpo, 19:2
[32] Contra as Heresias, III, 3, 2

Bibliografia:
Ramos, F. (2017). O martírio de São Policarpo de Esmirna como imitação da Paixão de Jesus Cristo. Lumen Veritatis - Revista Tomista | Filosofia Teologia - Tomás De Aquino, 10(38), 17-40. Recuperado de http://lumenveritatis.org/ojs/index.php/lv/article/view/409

Olson, Roger E. (2001). História da Teologia Cristã: 2000 anos de Tradição e Reformas. Editora Vida. ISBN: 8573675268

Britannica, T. Editors of Encyclopaedia (2020, May 19). Saint Polycarp. Encyclopedia Britannica. https://www.britannica.com/biography/Saint-Polycarp

Jerônimo. De viris illustribus, XVII: “Polycarpus, Joannis apostoli discipulus, et ab eo Smyrnae episcopus ordinatus, totius Asiae princeps fuit”.

Irineu de Lyon. Contra as heresias, V, 33, 4; III, 3,2 (trad. Paulus, v. 4, 6. ed., 2016)

Christianity Today, MARTYRS - Polycarp:

Martirio de São Policarpo: 

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