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Inácio, o trigo de Deus - ENTRE A MORTE E A GLÓRIA

Na minha primeira publicação sobre os mártires da história da Igreja, falei de um dos meus preferidos, Policarpo de Esmirna, discípulo do Apóstolo João que morreu corajosamente em nome de Cristo. Cite também Inácio de Antioquia, seu bispo tutor que esteve em sua casa perto de morrer em Roma e é sua historia que contarei hoje, o grande Inácio, o mais famoso Pai Apostólico. Se quiser ver o vídeo que lancei no meu canal sobre ele, clique nesse link.

Princípio e formação

Ícone de Inácio, o Pai Apostólico


Inácio nasceu entre os anos 30 a 35, próximo da morte do próprio Cristo. Assim como outros homens de sua época, adotava dois nomes, um para fins legais e outro para fins pessoais e seu primeiro nome Ignatius vinha de Ignis (fogo), enquanto seu segundo, Theophorus (Téoforo) pode ser traduzido como “aquele que porta a Deus”, termo que condiz ao seu legado e se assemelha ao Teófilo bíblico (Lc 1:3; At 1:1), o qual significa “amigo de Deus”.

Uma lenda antiga diz que ele era a criança que Jesus pegou no colo em um de seus sermões (Mc 9:35) e por mais interessante que seja, não há grandes chances para isso. Sabemos, contudo, que ele possuía uma conexão direta com a tradição apostólica, sendo identificado como discípulo do Apóstolo João assim como Policarpo (69-155). 

Isso os tornou bastante próximos, existindo inclusive a Epístola a Policarpo (c.107), escrita por Inácioa ele recomendando-o que "Justifique tua dignidade episcopal com total solicitude física e espiritual" [1]. Para saber mais sobre Policarpo, confira a publicação anterior do Entre a Morte e a Glória. Allen Brent diz em sua obra sobre Inácio:

“Eusébio, como vimos, numerou Inácio e Policarpo como associados imediatos dos Apóstolos. Na realidade, o próprio Pedro, alegava Eusébio, consagrou o predecessor imediato de Inácio, Hero, como bispo de Antioquia. Esse homem [Inácio] liderou a conquista da ortodoxia contra a heresia” [2]

Eusébio de Cesaréia (265-339) assim testifica:

"Mas, depois que Evódio fora estabelecido o primeiro sobre os antioquenos, Inácio, o segundo, reinava no tempo do qual falamos” [3] 

Orígenes (185-254) afirma que ele foi o segundo depois de Pedro [4] enquanto Jerônimo (347-420) testifica sua sucessão de maneira diferente, como o terceiro por colocar Hero antes dele [5]. Isso era muito comum nas antigas listas de sucessão eclesiástica, onde a ordem e as datas se confundiam com frequência, até mesmo nas grandes igrejas como Roma e Alexandria. Tradicionalmente, acredita-se que Inácio virou bispo de Antioquia logo depois de Evódio, sendo este escolhido para suceder o apóstolo Pedro, fundador e primeiro bispo da cidade e é possível que tenha sido escolhido pelo próprio Pedro para suceder o ministério antes do apóstolo sofrer martírio em Roma, segundo Teodoreto de Cirro [6].

A cidade de Antioquia era a capital da província da Síria, centro importante para o Império e foi o local onde os apóstolos foram chamados cristãos pela primeira vez (At 11:26). A igreja foi formada principalmente por cristãos vindos de Jerusalém devido a perseguição e pelo fato da mão do Senhor estar com eles (At 11:21), a nova fé conquistou muitas almas, especialmente aqueles com um passado no judaísmo como o diácono Nicolau (At 6:5). Mesmo que Inácio tivesse um passado pagão, ressalta bastante a distinção entre o cristianismo e o judaísmo [7], representando essa transição da fé cristã como independente do passado judaico. 

As Epístolas de Inácio

Inácio é considerado o mais importante dentre os Pais Apostólicos, grupo que inclui Policarpo e Clemente de Roma, todos datados da transição entre os séculos I e II e nos deixou sete epístolas preenchidas por uma fé de enorme vigor, revelando seu fascínio por Jesus Cristo e tornando-as ótimas fontes para conhecer o cristianismo de seu tempo. São elas:

  1. Epístola aos Magnésios
  2. Epístola aos Trálios
  3. Epístola aos Efésios
  4. Epístola aos Romanos
  5. Epístola aos Filadelfos
  6. Epístola aos Esmirnenses
  7. Epístola a Policarpo

As quatro primeiras foram escritas em Esmirna, quando sediava-se na casa de Policarpo de Esmirna, enquanto as três últimas foram escritas em Trôade, todas durante a sua jornada ao martírio. Embora cada uma contivesse um tema particular, o maior propósito que se eleva sobre todas é a unidade visível e invisível do Corpo de Cristo.

"Inácio escreve como um prisioneiro condenado no caminho da execução, para igrejas que enfrentavam sérios problemas que as perturbavam e dividiam. Ele é primariamente um pastor, não um apologista ou teológico, e suas maiores preocupações enquanto escreve são pastorais" [8]

Inácio clama aos cristãos magnésios pela união na carne e no espírito de Jesus Cristo, a nossa eterna vida [9], utilizando do termo carne no mesmo sentido que o apóstolo Paulo em Gl 1:16, como sinônimo de material, visível. O maior representativo da unidade cristã é a submissão aos santos ministros do Senhor, diáconos, presbíteros e o bispo [10], especialmente este último visto como modelo do próprio Senhor. A obediência ao bispo é atender ao desejo de Deus, honrando a autoridade instituída por Ele.
estejais dispostos a fazer todas as coisas na concórdia de Deus, sob a presidência do bispo, que ocupa o lugar de Deus, dos presbíteros, que representam o colégio dos apóstolos, e dos diáconos, que são muito caros para mim, aos quais foi confiado o serviço de Jesus Cristo, que antes dos séculos estava junto do Pai e por fim se manifestou [10]
Essa submissão santifica a comunidade [12] pois o supremo bispo de todos nós, Cristo Jesus, revela-se através do líder maior da congregação, unido profundamente a Cristo como Ele ao Pai [13]. Essa hierarquia assim se manifesta "a fim de que todas as coisas estejam de acordo na unidade" [14]. Sua forte defesa de uma hierarquia episcopal não anula a participação dos outros servos, ressaltando aos esmirnenses o respeito aos diáconos como a Lei de Deus [15]. Limita a atitude independente dos crentes [16], buscando

manter-vos firmes nos ensinamentos do Senhor e dos apóstolos, para que prospere tudo o que fizerdes na carne e no espírito (...) unidos ao vosso digníssimo bispo e à preciosa coroa espiritual formada pelos vossos presbíteros e diáconos segundo Deus [17]

A união é tanto física quanto espiritual, ameaçada na carne mas imperecível no espírito (Ef 4:1:6)


Vale, nesse caso, uma explicação bíblica da hierarquia cristã. Pelas Escrituras nós vemos que o ministério cristão inicialmente era composto por um sistema de colegiado de anciãos e ministros, também chamados presbíteros e diáconos, (At 11:30; 15:22), homens santos escolhidos pelos apóstolos para agir na Obra de Deus (At 6:1-7; 14:23). Os anciãos superiores, chamados bispos (episkopos, "supervisor") possuíam maior preeminência (Fp 1:1; Tt:17; 1Tm 3:2) e mantinham a sucessão ministerial nomeando outros presbíteros (Tt 1:5). Na prática, entretanto, o próprio bispo ainda era um presbítero, enquanto nas cartas de Inácio vemos esse conceito evoluir, enquanto outras igrejas permaneciam sob um conjunto [18]

Esta foi a hierarquia que se convencionou:
  • Bispos como representantes locais da congregação e representantes diretos do Senhor,
  • Presbíteros como ministros teológicos que ministram os sacramentos, auxiliam o bispo e exortam a congregação, sendo que um deles se tornará o futuro bispo,
  • Diáconos como ministros da comunidade, auxiliando na coleta financeira, na distribuição das doações, no socorro aos doentes e necessitados e outras carências sociais.
Estrutura hierárquica da Igreja, desenvolvida a partir do século II


Essa mudança se manifesta por uma questão de pura necessidade. Assim como recomenda aos filadelfos, “Filhos que sois da luz da verdade, fugi da cisão das más doutrinas. Onde estiver o pastor, segui-o, quais ovelhas” [19], sabendo que o corpo da Igreja era responsável por manter a verdade com base nas Escrituras (1 Tm 3:15). O mesmo valia a todas as congregações, carentes de líderes hábeis a preservar a tradição e proteger os fiéis das ciladas de Satanás [20] vencidas pela concórdia da fé dos cristãos [21]

A unidade do Corpo para Inácio ultrapassa toda fronteira, como confessa: 
Onde aparece o bispo, aí esteja a multidão, do mesmo modo onde está Jesus Cristo, aí está a Igreja Católica. Tudo o que ele aprova, é também agradável a Deus, para que seja legítimo e válido tudo o que se faz [22]
Nesta primeira ocorrência do termo católico (khatolikos), Lightfoot defende que o termo significa apenas "universal" e que aparece em toda a literatura primitiva como símbolo da abrangência e união do Corpo, não se referindo a atual Igreja Romana [23]. Observamos a conexão de todas as igrejas dispersas reunidas no único corpo de Cristo, o cumprimento do mandamento de Cristo (Mt 28:19-20), anulando toda diferença nacional (Gl 3:26-29) e expressando como prova da graça internacional de nosso Deus a Eucaristia, que é 
o partir do mesmo pão, que é remédio de imortalidade, antídoto para não morrer, mas para viver em Jesus Cristo para sempre [24]

Tal ensinamento estava em conexão direta com sua compreensão da encarnação de Cristo. Em um período onde o docetismo (dókēsis, "aparência") dominava muitos cristãos, rejeitando a realidade humana de nosso Salvador, Inácio não poupou esforços em defender não apenas sua divindade [25] mas principalmente sua humanidade e a veracidade seu sofrimento [26]

Ele sofreu tudo isso por nós, para que sejamos salvos. E ele sofreu realmente, assim como ressuscitou verdadeiramente. Não sofreu, apenas na aparência, como dizem alguns incrédulos [27]

 A Eucaristia, por sua vez, era o comer do real corpo e sangue de Jesus Cristo [28], operando magnificamente em nosso interior como dom de Deus. Embora haja várias interpretações, destaco que o comer espiritual do pão de Deus (Jo 6:52-59) não deixa de ser uma alimentação real e significativa.

Os protestantes são mais avessos a exortações como a de Inácio por desconfiarem da frieza associada com a hierarquia e o clericalismo católico, confiando numa fé bem mais individual, entretanto não se pode negar o fundamento da união do Corpo de Cristo (Jo 17:20-26; 1 Co 12:12-31). É exigido possuir critérios para bons servos de Deus que ministrem os graciosos sacramentos de Deus, dádivas espirituais que regeneram o nosso ser e promovem a nossa união (1 Co 10:16-17; 11:17-34; Tt 3:5), inconciliáveis com discordâncias. É nosso dever manter uma inseparável unidade [29] e ainda que perversos busquem nos derrubar [30], apeguemo-nos a Palavra de Nosso Deus e ao Corpo que ele nos deixou para ser guiado pelo Espírito Santo, selo de nossa fé (Ef 1:14) e meio de conexão (1 Co 12:12-13).


A Igreja Católica Romana se apropriou de muito dessa linguagem com inovações próprias que corromperam os sacramentos e as Escrituras mas isso não deve fazer com que nós protestantes nos esqueçamos do legado dos Pais Apostólicos em defender arduamente os sacramentos, a Encarnação de Cristo e a união eclesiástica.


“Hoje, com o Credo Apostólico, confessamos fé na ‘Igreja santa e católica’. Foi isto que esse período nos deu: o cristianismo ‘católico’. Ele era mais do que uma organização’ era uma visão espiritual, uma convicção de que todos os cristão devem estar e um único corpo” [31] 

Martírio

Inácio sendo devorado pelas feras, Cesare Fracanzano, Escola de Pintura Napolitana, Galeria Borghese, Roma

Inácio enfatizava o Evangelho pela caridade dos irmãos e o compartilhar da paixão de Cristo. Em suas palavras,
para sofrer com ele, eu suporto tudo, e é ele quem me dá forças, ele que se fez homem perfeito [32].

Se não estivermos prontos para morrer em Sua Paixão, Sua vida não estará em nós. [33]
Inácio mostrava, por toda a sua vida, que estava mais do que pronto para cumprir seu objetivo, atendido no início do segundo século. O imperador Trajano (53-117) instituiu um método de perseguição que permaneceu inalterado por décadas no Império Romano, onde os cristãos não eram perseguidos sistematicamente mas caso fossem denunciados por autoridades, deveriam ser julgados e condenados, resultando quase sempre em morte por não terem os mesmos direitos a defesa do que outros sentenciados.

Os cristãos tinham uma tremenda obstinação em não negar a Cristo, mesmo sendo obrigados a sacrificar aos deuses e a renunciar a fé se almejassem viver, atitude tida como crime de insubordinação como fica claro nas cartas de Plínio, o Jovem, direcionadas ao imperador [34]. Tertuliano (160-220) futuramente argumentaria contra a falta de lógica romana em sua Apologia, porém aos cristãos do primeiro e segundo século nada restava senão aceitar o destino que Deus preparou.

Não temos certeza do que levou Inácio a ser condenado, pois nem mesmo Jerônimo nos rende detalhes. Na Chronographia de João Malalas (491-578) ele diz que o imperador estava em guerra com os persas no oriente e encerrou a morte de cristãos na Antioquia, porém após um terremoto avassalador em dezembro de 115, Trajano culpou eles e especificamente Inácio pelo desastre e o mandou para ser devorado pelas feras [35], assim como outros cristãos [36].

Embora não saibamos se é verdade, o mais provável é que tenha sido preso entre os anos 107 e 110 como nos conta Eusébio, sendo levado pelas estradas do Sul da Ásia Menor com a escolta de dez soldados que o atormentavam c
omo leopardos [37]. Teria sido mais barato levá-lo de navio, então é possível que não fosse a preocupação essencial da tropa.

Ao longo dessa viagem, passou pelas cidades que receberam as cartas, Magnésia, Trales, Éfeso, Esmirna e outras que receberam suas epístolas através de diáconos e mensageiros que o visitavam com restrições. "Embora Inácio fosse cidadão romano, ele podia ter vindo de classes inferiores" [38], o que justifica sua expectativa da tragédia [39].

Estava ciente de seu inexorável destino e sabia que cristãos influentes de Roma poderiam impedir sua morte, por isso apela: “Não desejeis nada para mim, senão ser oferecido em libação a Deus, enquanto ainda existe altar preparado". [40] Ele possui uma crença inabalável em sua missão e um desejo indescritível por esse grande ato, crendo que assim será aperfeiçoado como expressa o Apóstolo Pedro (1 Pe 5:8-10). Alguns chegaram a questionar a sua sanidade por se mostrar apático a própria morte, mas Inácio sabia exatamente o que ansiava: a herança celestial prometida por Cristo a todos os que são perseguidos por sua causa (Mt 5:10) [41]

Sabia muito bem como o transcendente e o invisível superam em muito a nossa realidade e deseja tal herança com todas as suas forças. O próprio Cristo Jesus torna-se ainda mais manifesto após sua ressurreição e que "O cristianismo, ao ser odiado pelo mundo, mostra que não é obra de persuasão, mas de grandeza" [42]. Por anos pregou a todos sobre desvirtuar-se do mundo e ancorar-se a Cristo Jesus, abandonando todas as paixões que nos prendiam a essa terra corrupta e de repente se depara com a missão de colocar em prática a suas palavras, para que "não só me diga cristão, mas de fato seja encontrado como tal" [43]. 

Sabia que a carne é fraca e como Satanás deseja afastá-lo de Deus e por isso suplica aos crentes que mesmo que ele implore por sua vida, não o atendam e o deixem morrer e se apeguem ao que escreveu anteriormente [44].
É melhor morrer para Cristo Jesus do que ser rei até os confins da terra. Procuro aquele que morreu por nós; quero aquele que por nós ressuscitou. Meu parto se aproxima. Deixai-me receber a luz pura. Deixai que seja imitador da paixão do meu Deus [45]
O propósito de sua vida era mais do que se apegar-se a mera existência material, pois a honra de morrer por Cristo supera qualquer prazer de ser rei aqui na terra [46]. "Se Deus, o Pai, se agradou com a morte de seu Filho por pecadores, a morte de Inácio por sua fé em Cristo seria também agradável a Deus. Assim como a morte de Cristo foi uma morte em que lhe fizeram violência, mas ele não revidou, assim também seria a morte de Inácio, o imitador da paixão." [47] Este santo eleito de Deus buscou veemente ser como Jesus em todo o seu caminhar, proclamando sua fé diante de todos os perseguidores e sendo levado aos suplícios do cárcere graças a sua lealdade inabdicável ao Rei dos Reis. "Não sinto prazer pela comida corruptível, nem me atraem os prazeres desta vida. Desejo o pão de Deus, que é a carne de Jesus Cristo, da linhagem de Davi, e por bebida o sangue dele, que é o amor incorruptível" [48], palavras que cumprem belamente Gálatas 5:24 onde o velho homem é morto pela obra de Cristo Jesus e e estar com ele é o nosso único e maior desejo.

Do seu interior fluíam águas vivas (Jo 7:38) que clamavam para ir ao Pai e não negaria o chamado do Espírito, necessitando encontrar-se face a face com o centro de sua vida a partir do batismo de sangue, o martírio. Exaltava o Senhor Cristo Jesus,

o único Médico, Própria carne, mas espírito também; Não criado, e apesar disso, nascido; Deus e Homem unidos em Um só; De fato, a própria Vida na Morte, O fruto de Deus e o filho de Maria; Ao mesmo tempo, impassível e ferido por dor e sofrimento neste mundo; Jesus Cristo, que conhecemos como nosso Senhor [49]
O inigualável mistério da Encarnação o encantava profundamente e dominava todas as suas paixões humanas. Nada era superado pela honra de padecer pela própria Vida e expressar a sua total devoção pelo único e Todo-Poderoso Deus. Sabia sofrer na carne porque Cristo veio em carne [50] e não rejeitaria essa defesa explícita do verdadeiro corpo de Cristo que salva nossas almas
Deixai que eu seja pasto das feras, por meio das quais me é concedido alcançar a Deus. Sou trigo de Deus, e serei moído pelos dentes das feras, para que me apresente como trigo puro de Cristo. Ao contrário, acariciais as feras, para que se tornem minha sepultura, e não deixem nada do meu corpo, para que, depois de morto, eu não pese ninguém. Então serei verdadeiramente discípulo de Jesus Cristo, quando o mundo não vir mais meu corpo. Suplicai a Cristo por mim, para que eu, com esses meios, seja vítima oferecida a Deus. Não vos dou ordens como Pedro e Paulo; eles eram apóstolos, eu sou um condenado. Eles eram livres, e eu até agora sou um escravo. Contudo, se eu sofro, serei um liberto de Jesus Cristo, e ressurgirei nele como pessoa livre. Acorrentado, aprendo agora a não desejar nada [51] 
Sua epístola encerra estimulando outros a também serem amados por Deus e recusarem a aprovação de homens [52]. Não possuímos detalhes confiáveis de sua morte pois o Martyrium Ignatii (Martírio de Inácio) e seus Atos foram considerados espúrios (falsos), porém sabemos que a damnatio ad bestias, a condenação sofrida por Inácio era extremamente cruel, sendo trucidado pelos seus dentes e terrivelmente dilacerado. Ainda assim, não se importava, pois como disse: 

Que nada de visível e invisível, por inveja, me impeça de alcançar Jesus Cristo. Fogo e cruz, manadas de feras, lacerações e desmembramento, trituração de todo o corpo, que os piores flagelos do diabo caiam sobre mim, com a única condição de que eu alcance Jesus Cristo. [53]

Michael Haykin corretamente expressou, "O martírio de Inácio foi uma poderosa defesa da realidade salvífica da encarnação e da crucificação. Em sofrer uma morte violenta, Inácio estava confessando que seu Senhor tinha sofrido realmente uma morte violenta e, por meio dela, trazido salvação à humanidade perdida. A confissão era tão importante, tão central à ortodoxia cristã, que era digna de alguém morrer por ela". 
[54]

Em sua vida santa e impressionante martírio, apegou-se tão firmemente ao amor de Deus que tornou-se furto incorruptível provindo dos ramos da cruz de Cristo [55], crendo fortemente que fora dele não há verdadeira vida [56]. Sejamos como Inácio, dispostos a devotar nossas vidas e nosso falecer ao Todo-Poderoso, crentes de que seremos levados a Sua Presença e desfrutaremos de suas benevolências tal como Inácio hoje desfruta.

Não se esqueça de conferir o vídeo que fiz sobre o assunto:




Graça e paz a todos vocês,
Luigi Bonvenuto.

REFERÊNCIAS:

[1] Ep. a Policarpo, 1  
[2] BRENT, Allen. "Ignatius of Antioch: A Martyr Bishop and the Origin of Episcopacy". A&C Black, 2007.
[3] Eusébio de Cesaréia, História Eclesiástica; tradução Monjas Beneditinas do Mosteiro de Maria de Cristo. ― São Paulo: Paulus, 2000.― (Coleção Patrística – Vol. 15), p.139
[4] Orígenes, Homílias em Lucas, 6,4 em: LIENHARD, Joseph. T. "Volume 94 de The Fathers of the Church: A New Translation", 1996, p.24-25
[5] Padres Apostólicos, 2015, p. 73
[6] CULPEPPER, Scott, 2011  The Encyclopedia of Christian Civilization, First Edition. Edited by George Thomas Kurian.  Blackwell Publishing Ltd.
[7] Ep. aos Magnésios, 10
[8] DONAHUE, Paul J. "Jewish Christianity in the Letters of Ignatius of Antioch". Vigiliae Christianae, Vol.32, No. 2, Jun.,1979, p. 81-93, p.81
[9] Ep. aos Magnésios, 1
[10] Ep. aos Magnésios, 3
[11] Ep. aos Magnésios, 6

[12] Ep. aos Efésios, 2

[13] Ep. aos Efésios, 4

[14] Ep. aos Efésios, 5

[15] Ep. aos Esmirnenses, 8

[16] Ep. aos Esmirnenses, 8,9; Ep. a Policarpo, 4 

[17] 
Ep. aos Magnésios, 13
[18] Clemente Romano, Carta aos Coríntios, Introdução
[19] Ep. aos Filadelfos, 4
[20] Ep. aos Tralianos, 8
[21] Ep. aos Efésios, 13
[22] Ep. aos Esmirnenses, 8
[23] Lightfoot, Joseph Barber (1889). The Apostolic Fathers: Revised Texts with Introductions, Notes, Dissertations and Translations. S. Ignatius, S. Polycarp (Second ed.). Macmillan. pp. 413 e 414 
[24] Ep. aos Efésios, 20
[25] Ep. aos Romanos, Saudação, 3,6 ; Ep. aos Magnésios, Saudação; Ep. aos Tralianos, 7
[26] Ep. aos Esmirnenses, 1
[27] Ep. aos Esmirnenses, 2
[28] Ep. aos Esmirnenses, 7

[29] Ep. aos Efésios, 4-6

[30] Ep. aos Tralianos, 11

[31] Shelley, 3, p.43.

[32] Ep. aos Esmirnenses, 4

[33] Ep. aos Magnésios, 5
[34] Letters 96 and 97, Book X

[35] LIGHTFOOT, J. B. "The Apostolic Fathers". Londres: Macmillan, 1890, p. 435-50

[36] Inácio, Ep. aos Romanos, 10; Pol, Ep. aos Filipenses, 9, citando Zózimo e Rufo.

[37] Ep. aos Romanos, 5

[38] HAYKIN, Michael. "Redescobrindo Os Pais Da Igreja". Editora Fiel: 2012, p. 41

[39] Ep. aos Romanos, 4

[40] Ep. aos Romanos, 2. 
[41] Ep. aos Romanos, 1
[42] Ep. aos Romanos, 3. 
[43] ibid.
[44] Ep. aos Romanos, 7
[45] Ep. aos Romanos, 6 

[46] ibid

[47] HAYKIN, Michael. "Redescobrindo Os Pais Da Igreja". Editora Fiel: 2012, p. 46

[48] Ep. aos Romanos, 7

[49] Ep. aos Efésios, 7 

[50] Ep. aos Esmirnenses, 3

[51] Ep. aos Romanos, 4

[52] Ep. aos Romanos, 8

[53] Ep. aos Romanos, 5

[54] HAYKIN, Michael. "Redescobrindo Os Pais Da Igreja". Editora Fiel: 2012, p. 54

[55] Ep. aos Tralianos, 11

[56] Ep. aos Tralianos, 9

BIBLIOGRAFIA:

BRENT, Allen. “Ignatius of Antioch: A Martyr Bishop and the Origin of Episcopacy”. A&C Black, T & T Clark theology, 2007. 

EVANGELISTA, Ricardo José. “As cartas de Santo Inácio de Antioquia e os elementos essenciais da fé cristã”. TCC (Graduação em Teologia) - Faculdade Católica de Anápolis , Diocese de Anápolis. Anápolis, 2017 

O’CONNOR, John Bonaventure. "St. Ignatius of Antioch." The Catholic Encyclopedia. Vol. 7. New York: Robert Appleton Company, 1910. Disponível em: http://www.newadvent.org/cathen/07644... 

OLSON, Roger E. “História da Teologia Cristã: 2000 anos de Tradição e Reformas”. São Paulo: Editora Vida, 2001 

“Ignatius of Antioch: Earliest post-New Testament martyr”. Christianity Today. Disponível em: https://www.christianitytoday.com/his... 

Epístolas de Inácio: 
Epístola aos Magnésios: https://www.veritatis.com.br/carta-de... 
Epístola aos Esmirnenses: https://frutodagraca.files.wordpress.... 
Epístola aos Filadelfos: https://www.veritatis.com.br/carta-de... 
Epístola aos Tralianos: http://www.monergismo.net.br/textos/l... 

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